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Floresta
Acrílica s/ tela
140 x 220 cm
2014
S/ Título
Aquarela s/ papel
47 x 33 cm
2014
S/ Título
Aquarela s/ papel
47 x 33 cm
2014
S/ Título
Acrílica s/ papel
90 x 125 cm
2015
Cidade
Jitaúna, Bahia
Nascimento
1952
Perfil
Pintor, Desenhista

As imagens atravessam, em seus signos, um sertão e uma mata atlântica baiana onde nasceu e viveu a infância, e dela uma ação de contar histórias, registrar espaços, extrair impressões, passando pela vida adulta na urbanidade de Brasília, onde incorporou humor e ironia. Isso sem esquecer a cidade da Bahia, cidade da adolescência e juventude, à qual está de volta hoje, marcada pela formação e a informação, o conhecimento da arte e do mundo, quando a obra ganhou uma dramaticidade que se juntou ao imaginário, abarcando melancolia e alegria, e tornou imperioso realizar um trabalho que não seja crítica social. Muitas palavras poderiam pontuar sua trajetória – instigante, intenso, figurativo, entre outras – e todas abrangeriam um momento ou vários momentos da sua arte, desenho e pintura que se misturam e se completam por um caminho conduzido pelo artista para instigar, em seus temas, e no fazer de técnica e tons, a exigência de uma arte para pensar e se pensar, questionadora do hoje e da condição humana.

Zivé Giudice nasceu em Jitaúna, Bahia. Formou-se pela Escola de Belas Artes da Universidade Federal da Bahia em 1980. Entre suas individuais: 1985 – Escritório de Arte da Bahia, Salvador, BA; 1997 – Galeria de Arte da Casa Thomas Jefferson, Brasília, DF; 2000 – Espaço Cultural Le Corbusier, Embaixada da França, Brasília, DF; 2004 – A cidade é bela, Espaço Cultural Politec, Brasília, DF. Em coletivas: 1998 – Bahia a Paris – Arts Plastiques d’aujourd’hui – Galerie Modus, Paris, França; 1998 – Cem Recuerdos para Garcia Lorca – Espaço Cultural- 508 Sul – Brasília, D.F.; 1999 – Arte em um Céu para Todos – Pipas pintadas por artistas latino-americanos / 50 anos dos Direitos Humanos – Memorial da América Latina – São Paulo. Foi premiado em Salões Universitários; em 1986 – VII Mostra do Desenho Brasileiro – Curitiba, PR; 1986 – IV Salão Arte-Pará – Menção Honrosa.

Você nasceu em Jitaúna, cidade no interior da Bahia. O que há de sua cidade, de sua gente, de sua infância como campo de referência ou de investigação na sua arte? Esta condição de origem, a história dela, como está traduzida na sua arte? Há a memória deste interior na sua forma de expressão nas preocupações temáticas para criá-lo de sua obra?

Guardo, sim, memórias de Jitaúna, onde nasci; da minha educação proveniente de uma família italiana, austera, católica; da liberdade de convivência indiscriminada com todas as classes sociais, étnicas etc., lembrando que Jitaúna, pela sua agricultura cacaueira, compunha-se de ricos e pobres. Minha obra é contaminada por isso; toda obra, ao fim e ao cabo, é autorreferente.

Depois morou muitos anos em Brasília. O que traz para o artista esta vivência na capital do poder? O que isto deflagrou no ser humano e no artista?

A cidade de Brasília tem com o Planalto a mesma relação das outras capitais. O poder não se imiscui na cidade, a não ser nos serviços que igualmente são prestados em outros lugares. De modo que vivi em Brasília com a mesma consciência crítica que vivi, e vivo, em Salvador, com relação ao poder.

Vamos à criação: que estímulo ou estímulos provoca a criação de suas obras? Como ele se processa? Como é realizada a dinâmica da sua criação? Inteiramente pensada? Algo empírico? Sensibilidade? Respostas a questões do cotidiano? Subjetividade? Como é feita a escolha de seus temas?

Normalmente tenho uma ideia. Vou trabalhar essa ideia. Durante o processo de construção da obra, inevitavelmente surgem outros sinais e informações que vão dialogando com a ideia inicial; e quase sempre resulta em uma outra coisa.

Ainda na criação, a partir de que momento você decidiu trabalhar determinada questão? E com isto decidido, surgiu concomitantemente à escolha do material, do meio para expressão, da forma e da cor, ou acompanhou o processo esta definição, já que você vem explorando uma infinidade de todos eles através de temas, formas, cores, expressão na sua obra?

Forma, cor, matéria, conceito vão construindo uma conversa à que me referi anteriormente. Meus trabalhos sempre resultam de muita labuta, questionamento; talento e inspiração já não me parecem mais suficientes. Minha obra tem uma coisa cerebral e visceral, acho.

Sua arte maior é a pintura. Você é um pintor. Talvez seja uma frase excessivamente objetiva, mas é como eu o vejo. Mas esta pintura tem modificado em si mesma durante todo este período, desde um começo figurativo, continua figurativo, no que conheço, mas a densidade dramática do início ressalta hoje mais em outros pontos, como a ironia e o humor, além de uma inteligência do fazer e um rigor preciso. Isto vem de uma relação com o mundo externo ou de uma liberdade experimental? Isto continua e de que forma?

Durante muito tempo, no começo, produzi, com intensidade, desenhos. Era considerado um desenhista. Aprendi a também gostar de pintar. Gosto do desenho na pintura. Mesmo quando vigorosa a pintura, gosto das lembranças dos desenhos quando surgem como uma arqueologia; impressões.

Em sua arte hoje vemos indícios da pop art, na utilização de personagens dos quadrinhos, mas mass media, o que difere enormemente do seu início, mais no imaginário. O que o levou a estes temas? Há uma sensibilidade de época e uma abertura para as novas possibilidades da pintura neste seu trabalho hoje? Através dela, você continua a contar histórias, registrar espaços, extrair impressões? Esta sua arte traz com ela uma sensibilidade ou sentimento de época, de aqui e agora?

A primeira pergunta indaga o que trago da minha cidade Jitaúna; trago também a lembrança de ter começado a desenhar, reproduzindo personagens das histórias de quadrinhos, os gibis: Zorro, Batman, Tarzan, Flash Gordon etc. Aí você chega à capital, entra na Escola de Belas Artes, toma consciência da cena política e assiste a cena cultural, imiscui-se com artistas e intelectuais, vai observando e absorvendo tudo, misturando tudo, começa a produzir um trabalho com uma abordagem que traduza esse caldo cultural. Outras vivências vão dando outros tons em outras obras. Subitamente, volto a me interessar, agora em uma apropriação crítica e irônica, dos personagens que me instaram às artes visuais; e la nave và.

Esta “realidade” traz no seu desenho um grande humor, ironia, crítica social. Esta é sua assinatura para o que vê como um trabalho criativo seu? Quais seriam outros fatores? Mas estes não sendo, ou se assim o forem, há outros que você detecte como sendo bem pessoal de sua obra?

Acho que o meu trabalho sempre foi comprometido com a crítica social. Em algum momento, mais ácido e visceral; em outros, subliminares. Agora o considero mais irônico e com certo humor.

Sua arte é a sua vivência? A sua realidade? O real, ou a realidade, é um dos motivadores de sua pintura, o que leva alguns trabalhos, ou fases, ou séries a possuírem um caráter de denúncia, de artista engajado em lutas sociais ou políticas, no sentido de humanas. Estes assuntos estão inerentes à sua arte ou são preocupações do cidadão que se expressam, já que ele é um artista, na sua arte? Ou como você vê que mesmo sendo uma pintura de contexto próprio, sua obra, longe da história, política, sociologia ou arqueologia ou da psicanálise, está apenas por suas imagens, sendo tão plena de significações que se tornam o que veem a se fazer integral e denominadamente a sua pintura?

Já pensei que a manifestação de arte, qualquer que fosse a linguagem, devesse estar comprometida com as lutas revolucionárias. Não demorou a compreender que a arte por si já é uma manifestação suficientemente revolucionária, libertária e portentosa, transformadora.

O que o estimula nos dias de hoje a ser um pintor? Sensibilidade, um retrato de época, expressão de luta, uma forma de discutir e analisar o hoje? Ou simplesmente é só uma pintura? Não a devemos procurar ou a relacionar em outros campos a não ser a pintura?

Gosto de pensar que produzo e penso arte e que o faço como forma de inserção na vida, na sociedade. Às vezes com pretensões de estar contribuindo com o processo civilizatório. Outras, pelo prazer de exercitar essa instância da natureza humana; a sensibilidade do ato criador.

Como sente ou vê o momento das artes visuais agora? O mercado, há mercado? E o seu trabalho nele? Como você se sente presente neste universo?

A cena das artes visuais de um lugar, como de resto, de qualquer linguagem, depende de espaços públicos funcionando, programações comprometidas com as linguagens contemporâneas, intercâmbios com outros centros, valorização da história do lugar, galerias de arte etc. Considero que a produção das artes visuais, hoje na Bahia, tem uma qualidade inquestionável. Nunca houve tantos artistas conceitualmente bem avaliados pelas críticas nacional e internacional. Vale destacar a importância da Paulo Darzé Galeria pelo seu trabalho na construção de um mercado sensível à produção contemporânea, por difundir e estimular a arte atual.

 E a Bahia? Continua ainda um tanto conservadora, não só em seu mercado, mas na recepção de sua arte, e no sistema da arte como um todo? Como vê a arte agora no Brasil e mais especificamente na Bahia? Tem vigor? É atual? Responde aos anseios de nosso tempo? O que se pode fazer?

Acho que está respondida na questão anterior.

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