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Contas de Fé
Escultura em madeira
250 cm altura
2015
Yabá Oxum
Escultura em bronze patinado e brincos de latão
220 x 40 cm
2016
Figa
Escultura em madeiras diversas, cobre e figa de jacarandá
140 cm altura
2013
Mascáras
Cabeça de ipê e pinos de cobre com fios de lagidibás (pastilhas de chifre de búfalo da Nigéria)
50 cm altura
2015
Cidade
Salvador, Bahia
Nascimento
Perfil
Escultora e Artista Visual (Objetos, Instalações)

São esculturas, objetos-esculturas, instalações e videoinstalações que revelam uma investigação artística de uma poética relativa à história do Brasil, através de um olhar contemporâneo sobre a tradição, a herança africana, ancestralidade diante da opressão e da esperança de liberdade.

São esculturas, objetos-esculturas, instalações e videoinstalação criados com uma mistura de madeira de demolição ou de origem certificada, ouro, prata, contas, figas, pastilhas de coco, búzios, palhas e miçangas presentes em várias delas, entre outros materiais, acarretando nesta investigação um conhecimento da história do negro no Brasil.

São esculturas, objetos-esculturas, instalações e videoinstalação que retratam a cultura religiosa afro-baiana, sua história e identidade, a partir de uma pesquisa pela ourivesaria colonial, os balangandãs das escravas. Foi a partir deste encontro com a história baiana, deste conhecimento ancestral, que a artista iniciou seu percurso como escultora, a projeção de um olhar sobre as joias de crioulas e os adornos corporais africanos, e que por meio de uma poética e uma estética compõem sua criação e seu próprio imaginário acerca da religiosidade e da cidadania negra.

Nadia Taquary é baiana, nascida em Salvador. Graduada em Letras pela UCSAL e pós-graduada em Educação, Estética, Semiótica e Cultura pela EBA-UFBA. Em 2011, realizou sua primeira individual A Bahia Tem…, no Museu Carlos Costa Pinto. Seu trabalho já foi apresentado no MAR (Museu de Arte do Rio, 2014), na SPArte (2016), na Arte Rio (2015), no Museu de Arte da Bahia (2014), na III Bienal da Bahia (2014) e na Galerie Agnès Monplaisir (Paris, 2016). Está na coleção do MAR (Museu de Arte do Rio) e é parte de diversas coleções particulares no Brasil e no exterior.

Suas esculturas e objetos, eu prefiro chamá-los assim, são trabalhos que possuem como origem o período colonial, uma história afro-baiana, uma visão contemporânea da arte, e disto decorrem algumas perguntas:

Qual a sua relação com a estética e a poética que elas carregam, com o imaginário popular, a cultura e a história afro-baiana?

A minha relação é de total pertencimento a esta cultura afro-baiana, com tudo que ela abraça de historicidade, mestiçagem e religiosidade.

Como se processa, na construção de seu trabalho, a pesquisa para esta transposição de adornos e joias em esculturas e objetos? Qual a motivação que a levou a tornar adornos e joias e utensílios, bolas e balangandãs, figas e peixes e redes no cerne de sua criação?

A joalheria afro-brasileira sempre me chamou a atenção por seu fazer apurado, pela presença de uma estética forte, farta, opulenta, ostentatória, e por revelar, em si, o encontro de dois povos onde a técnica portuguesa se une à estética africana, fazendo nascer uma joalheria tipicamente baiana. Talismãs, amuletos e objetos denunciam o sincretismo e a misturado que somos.

Minha motivação é chamar a atenção para a presença dessa mão afro-brasileira tão importante na construção de nossa história e na identidade do que somos.

Chama a atenção nesta transposição suas dimensões, de pequenas a grandes, de 8 a 80 metros, e o material – madeira, ouro, prata, contas, cordas, pastilhas de coco, entre outros. Nesta transposição, reside o que você necessita para a visão contemporânea, ou são eles apenas meios para que consiga alcançar sua finalidade estética?

O tamanho é um chamado para nos reconhecermos nessa história que não fala apenas de dores de escravidão, fala também de uma herança forte nas suas origens, de superação, e construção do que somos. Nesse sentido a finalidade estética ao agigantar é como um grito para o que não se ouve ou o que não se vê.

Sua obra, fruto de pesquisa, não tem uma tentativa de reprodução, mas de uma releitura daquele tempo. Discorra sobre este olhar que a levou a isto e como realizou esta pesquisa e chegou ao que faz. Como sente esta transformação? Atinge seu objetivo ou o seu desejo?

Sim, não tem. O objeto já foi feito e reproduzi-lo não me satisfaria, mas me apropriar destes signos e símbolos inserindo-os em meu processo criativo, deslocando de seu lugar de origem para através dele contar a história através de um registro pessoal, isso é o que me alimenta.

Sua criação percorre a tradição, a herança africana, a ancestralidade, para obter a partir disso o olhar contemporâneo? Fiquemos na sua frase: “As pessoas têm de olhar para elas mesmas e reconhecer o valor da cultura ancestral delas”. Isto é feito por uma recriação estética, uma investigação poética, ou a história desta nossa terra. Há um ponto de partida consciente para os significados simbólicos que advêm de sua criação?

O ponto de partida vem da memória afetiva ligada ao meu pai, que não só possuía as chamadas “joias de crioula” como me presenteou em muitos aniversários na infância e na adolescência. Portanto, debruçar-me nessa pesquisa é um encontro com a história e, acima de tudo, um encontro comigo mesma.

Suas mostras são batizadas fazendo referência a aspectos da cultura afro-baiana. Qual a sua relação com esta? Sua cultura e sua história? Sua estética, seus símbolos? A sua religiosidade?

Minha relação, como baiana que sou, é de identidade com essa cultura no que vivencio, no que danço, no que como, no que vejo e no que crio.

Quanto à religiosidade, é impossível dissociá-la de minha arte; não existe na arte tradicional africana nada isento de religiosidade, nem um utensílio, nem uma máscara, nem objetos de uso do cotidiano. Nada é isento de produção de sentido, de signos que falam dessa religiosidade. A arte de onde me alimento tem a função de unir humano e espírito. Ayé e Orum. Não posso criar sem perpassar por estes lugares conscientemente. Um fio de contas amarelas não é apenas um fio. Durante sua construção, é impossível não reverenciar a doce presença de Oxum e sussurrando dizer: “seja bem-vinda, Ora ye ye o”.

Sendo uma arte escultórica contemporânea, suas mostras nos museus são instalações. Isto é consequência natural da relação que há para exibi-las, colocando o olhar de hoje sobre a tradição, imprescindível para seu processo e criação, um complemento natural para poder apresentá-las em mostras, ou só um modo particular ou atual de que seja assim?

Nem todas as peças são instalações, mas as que são partem da necessidade no próprio processo criativo que ela seja assim. É uma necessidade pessoal de que em algumas obras esse formato estético-visual seja vivenciado.

Vê em seus trabalhos um comentário estético sobre o tempo, a tradição, o novo, a arte nos dias de hoje? Aliás, como se vê na arte baiana e brasileira hoje? E o que é esta arte?

Eu me vejo pertencendo a um grupo de artistas que fala de questões relacionadas à presença e à importância do negro no Brasil, que, apesar de nitidamente explícitas, ainda são desconhecidas por muitos, quando não negadas. A mim, me orgulha ressoar em meio a maravilhosos e grandes colegas que admiro e que no trabalho e no discurso não se cansam de repetir, tantas vezes sejam necessárias, a força e a beleza na herança dessa história.

Você realizou exposições em museus e colocou peças em lojas, hoje é representada pela Paulo Darzé. Como sente esta trajetória no circuito profissional da arte brasileira? E mais, como se sente com a sua inserção neste circuito? O que mudou?

Sou muito tranquila com cada passo, cada etapa que meu trabalho me permite vivenciar. Pertencer a uma galeria importante como a Paulo Darzé é de fundamental importância para minha trajetória como artista e para a prospecção do meu trabalho. Com essa parceria, consigo pensar e criar de forma mais livre, em um espaço onde dialogo com a arte contemporânea em diversos níveis, onde posso aprofundar confortavelmente as questões ligadas à poética do meu trabalho, colocando-o cada vez mais consciente no mundo.

Parece-me que você nasceu em Salvador, foi criada em Valença, estudou Letras, Belas Artes, fez graduação e pós. Pode discorrer sobre sua biografia e a sua formação?

Nasci em Salvador, passei a infância e a adolescência em Valença, retornando a Salvador aos 17 anos para cursar a universidade. Fiz a graduação em Letras na UCSAL e pós-graduação em Arte, Educação, Estética e Cultura na UFBA. Entrei em Belas Artes para cursar arte, educação e cultura africana, de onde segui autônoma minha linha de pesquisas sobre joalheria afro-brasileira e adornos corporais de povos africanos, construindo através dela toda a poética de meu trabalho.

(entrevista / maio de 2017)

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