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S/ Título
Acrílica s/ tela
100 x 100 cm
2014
S/ Título
Acrílica s/ tela
150 x 150 cm
2014
Caixa D'água
Acrílica s/ tela
150 x 150 cm
2014
Série "Unité D habitation"
Acrílica s/ tela
150 x 150 cm
2016
Cidade
Recife, Pernambuco
Nascimento
1957
Perfil
Pintor

Grande parte de sua trajetória tem como tema o corpo humano, ou sua fragmentação, com especial relevo para o coração, intercambiado em suas narrativas por elaborações que expressam um falar de uma infância ou de uma vida perversa, com figuras insólitas, até chegar ao urbano, onde a ilusão do real, o jogo de formas e cores, por sua incidência da luz e da sombra, da composição e de combinações, leva-o em alguns momentos a colocar a pintura na tridimensionalidade, apresentando-a como objetos. Obra de representação, os trabalhos possuem como base a fotografia. Não uma fotografia tirada a esmo, mas preparada em seu cenário para tal, o que nos leva a estarmos diante de trabalhos, seja figurativo ou geométrico, em não procurar a realidade em si, apesar de estreitamente vinculada ao real, numa arte com origem essencialmente na pintura, arte que começou crítica, irônica, de beleza estranha ao mostrar a banalização da vida e da morte, do prazer e da dor, com uma visão que colocava em primeiro plano as obsessões, os fetiches, as exceções, percorrendo o simbólico, e com um humor bem preciso ao tratar a tudo isto, tendo como temática o que os críticos colocam como procurando representar aspectos eróticos, religiosos, e kitsch.

Hildebrando de Castro é pernambucano, mas vive em São Paulo.

Como surgiu o desejo de ser artista e, com ele, sendo autodidata, o direcionamento do estudo, a disciplina, o empenho para chegar ao objetivo deste fazer? Poderia lembrar até 85/86, quando já estava sendo premiado em salões. Fale um pouco sobre este começo, a sua sensibilidade e dedicação para chegar ao seu objetivo?

Eu tenho um primo cenógrafo que me inspirou bastante, embora ele não saiba. Toda vez que íamos visitá-lo era uma alegria para mim, pois ele desenhava superbem e fazia sempre o meu retrato. Eu achava aquilo simplesmente genial.

Passei boa parte da infância e da adolescência procurando referências e tentava representá-las. Aos 11 anos ganhei de um irmão, Elias, meu primeiro kit de pintura: tinta a óleo, pincéis e telas. Pintei algumas telas inspiradas no folclore e decidi que eu queria ser um pintor.

Aos 16 anos deixei a escola e resolvi procurar trabalho. Vim para São Paulo, onde consegui um estágio numa agência de publicidade. Imaginei que ali encontraria alguma coisa relacionada com a arte. Foi então que reencontrei Matty Vitart, uma amiga desenhista e pintora fantástica, fiquei muito impressionado com seu trabalho, o qual por muito tempo influenciou o meu. Após o estágio, regressei ao Rio e comecei a trabalhar na Bloch como arte finalista e resisti muito para não me transformar em um ilustrador, pois achava que poderia atrapalhar o desenvolvimento do meu próprio trabalho. No começo dos anos 80, trabalhei como freelancer e, portanto, tinha mais tempo para me dedicar ao desenho. Foi quando conheci o diretor de arte Tadeu Valério, da EMI-Odeon, nos tornamos grandes amigos e, por muito tempo, parceiros de trabalho. Posso até dizer que ele foi meu primeiro mecenas.

Após alguns anos trabalhando como programador visual para capas de discos, eu passei dois anos em Paris, viajando pela Europa. Até então, eu só trabalhava com lápis de cor. Sentia a necessidade de expandir mais o meu trabalho e comecei a experimentar o lápis de cor com o pastel seco, e o resultado foi incrível.

Na volta ao Brasil, por forte influência de um tipo de linguagem desenvolvida na época, meu trabalho sofreu outra virada. Mais solto, me dei o direito de pintar, utilizando tinta acrílica, sem preocupações com o rigor técnico. Eu ainda não tinha o completo domínio da pintura.

Participei de alguns salões, ganhei alguns prêmios e fui convidado a participar da Trienal do Desenho em Nuremberg. Nessa mesma ocasião, fiz a minha primeira individual fora do país, em Munique, na Galeria Irene Mader.

De volta ao Rio, comecei a procurar por uma galeria que me representasse. Foi quando conheci Franco Terranova, a quem chamo de “meu pai na arte”. Trabalhamos juntos até o fechamento da Petite Galerie.

Finalzinho dos 80, fui para Nova York e mais uma vez meu trabalho sofreu uma virada: deixei o desenho mais livre, passei para o desenho mais realista em pastel e comecei então a fotografar. Compunha minhas próprias cenas com personagens reais, geralmente amigos meus, como: Numa Ciro (parceira querida em várias fases do meu trabalho), Teuda Bara, Michele Matalon, Claudia Odorissio, Edith Uhl e netos, Reston, Bete Coelho, Lola, Renée Gumiel e outros que topassem posar para o trabalho.

No comecinho dos anos 90, resolvi procurar galeria em São Paulo, quando conheci o Marcantonio Vilaça. Trabalhamos juntos até a sua morte em 2000.

Em 96 voltei pra Nova York, onde morei até 2004.

No final dos 90, meu desenho me obrigou a recorrer à pintura, por conta das veladuras e das limitações do desenho em papel. Passei então três anos dedicando integralmente o meu tempo para aprender a dominar a técnica da pintura a óleo. Comecei com pinturas em preto e branco desfocadas, e somente em 2006 senti a necessidade da cor na pintura e confesso que foi um novo desafio.

Em 2008, a convite de um grande amigo, Sérgio Carvalho, fui a Brasília pela primeira vez e fiquei muito impressionado com a relação espaço e luz na arquitetura. Lembro que parei em frente ao prédio do anexo da Câmara dos Deputados e fiquei por horas a fotografá-lo. Sua frente inteira de janelas com brise-soleil me impressionou. O sol das quatro horas da tarde ao se refletir nos brises multiplicava suas formas e tonalidades. Fiquei a imaginar que seria como uma sinfonia infinita de composições com os mais variados tons a cada abrir e fechar de janelas todos os dias. Esta foi a minha primeira aproximação da geometria. Levei dois anos para assumi-la. Cheguei a pensar em fotografia, mas não estaria trazendo nada de novo ao meu trabalho com isso. Na pintura, parecia-me impossível trabalhar com tantas retas. Depois de conversas com amigos, Valdirlei Nunes, Rubens Mano e Carlito Contini, resolvi arriscar e tentar o desafio. Como consequência disso, a partir de 2010, meu trabalho sofreu mais uma virada. Embora permanecendo no figurativo, o desafio de então era compor uma geometria abstrata, isto é, trabalhar com a geometria sem utilizá-la para fins de representação.

Este começo artístico tem seu início no desenho, grafite e lápis de cor, no desenho gráfico linear. Depois veio o pastel. E nele consegue uma excelência de elaboração. Mas mesmo chegando a um trabalho tão bem efetivado, a partir de 2000 passou a pintar com óleo e um novo aprendizado por conta própria. O que o levou a zerar a trajetória de uma técnica e se aventurar em outra? Quais os benefícios que o óleo trouxe para sua pintura?

Como falei acima, o próprio desenho me levou à pintura. Quando passei a trabalhar com preto e branco (tons de cinza), o pastel começou a se mostrar limitado. As veladuras nem sempre funcionavam como aquelas feitas em cores. Foi preciso bastante dedicação para chegar novamente a um ponto de satisfação que eu havia conseguido no pastel. Precisei de três anos para chegar ao domínio da pintura. Desta vez não se tratava de uma pintura sem compromisso técnico como a que desenvolvia nos anos 80 e, além disso, o óleo se tornou realmente fascinante em suas possibilidades.

Seus trabalhos possuem como base a fotografia. Não uma fotografia tirada a esmo, mas preparada em seu cenário para tal. O que pode falar sobre este assunto? Quando começou a fotografar? Isto surgiu já com base para uma marca pessoal da criação artística, esta fotografia que é posteriormente manipulada e vira pintura, uma representação da representação ao executar desta maneira? Hoje, utiliza o vídeo, o cinema ou somente fotos pessoais para a sua criação?

Sim, meu trabalho tem como base a referência fotográfica. Primeiro, pela praticidade de ter sua referência sempre pronta. O fato de precisar de um modelo posando por horas e dias não facilita nenhum trabalho, mas na fotografia isso se torna possível, além de proporcionar o enquadramento desejado e ter a luz controlada. Quando trabalhava com modelos e situações, fazia fotos em preto e branco para pintar em cores. Gosto mais da dramaticidade da luz na foto em preto e branco. Na maioria das vezes, trabalho com minhas próprias imagens. Raramente utilizo imagens de apropriação, mas depende do trabalho. Por exemplo: realizei uma série de pinturas sobre catástrofes e paisagens onde utilizei imagens da internet e imagens de filmes. Hoje todas as imagens de arquitetura são feitas por mim, mas não me considero um fotógrafo. A fotografia é sempre utilizada como estratégia.

Na sua trajetória, temos como tema o corpo humano, ou partes dele em sua fragmentação, com especial relevo para o coração, mais seres humanos e bonecos, para falar de uma infância ou de uma vida perversa, com figuras insólitas, até chegar às últimas mostras e a ilusão do real. Daria para determinar como fases do trabalho ou elas se intercambiam por suas narrativas, elaborações e o simbólico que expressam? Como é que chegou aos seus temas?

Meu trabalho sempre foi figurativo e, como autodidata, me senti na obrigação de percorrer todos os caminhos. No princípio, eu queria dominar a figura humana e falar através dela. Assim foi até os anos 90, quando a figura então se tornou fragmentada. Em 95 vêm os corações em exposição no CCBB – Rio de Janeiro. Aos corações eu começo a acrescentar partes do corpo, sempre compondo uma narrativa. As partes fragmentadas eram de bonecas que passaram a substituir os modelos para fazer uma paródia da vida real.

De volta aos retratos, dei início à fase em preto e branco. As paisagens sempre me fascinaram, principalmente as que ficavam de fundo nas pinturas clássicas. Pintei algumas inspiradas nas vitrines do Museu de História Natural de Nova York, como também uma série de cachoeiras.

De volta ao Brasil, em 2004, estive no Nordeste por um tempinho e comecei uma nova série, através da qual voltava aos fragmentos e fazia uma paródia entre bordado e cicatriz, dobraduras e marcas do tempo. Tinha muito a ver com essa volta ao nosso país.

Após alguns anos dedicados muito mais à pintura, resolvi retornar um pouco para o pastel e regressei exatamente ao ponto onde eu tinha parado: nos bonecos. Logo após vem a série das catástrofes em pintura, e, já entrando na paisagem urbana, a qual dá passagem para o trabalho que estou desenvolvendo ultimamente. A ligação entre uma série e outra se deve ao desejo de mudar e de poder me superar.

É dito pela crítica que sua temática procurar representar aspectos eróticos, religiosos, kitsch, e é um trabalho de representação figurativa. Como é que estas observações são recebidas por você? São realmente pertinentes ao seu trabalho?

Sim, meu trabalho sempre foi alusivo, irônico. Hoje, a luz e a sombra são as protagonistas, embora não se possa ainda definir o lugar de uma narrativa através destas janelas abertas ou fechadas. Mas asseguro que neste trabalho atual, embora figurativo, procuro mais a abstração do que a representação.

Há uma ruptura desta trajetória com as últimas mostras, Ilusões do Real? Ou será que o jogo de formas e cores por sua incidência da luz e sombra, a composição e combinações, e as fotografias não estão presentes desde o início? E nesta última fase, poderia falar da chegada dos objetos, a pintura passando para o tridimensional, mesmo mantendo-se sobre a superfície de uma parede?

A luz sempre foi a preocupação central no meu trabalho. Eu gosto muito de brincar com a ilusão da tridimensionalidade, mas é preciso que ela se encaixe perfeitamente à proposta. Foi o que aconteceu com essa série sobre a arquitetura. Como a própria pintura parece tridimensional, não foi difícil chegar aos objetos (relevos). O miniaturista maravilhoso Humberto Jara, que trabalha muito bem com madeira, ajuda-me a confeccionar os objetos. Depois executo a pintura e escolho as cores, as luzes e as sombras, compondo a imagem.

Sendo uma obra de representação, seja figurativa ou geométrica, pois não procura a realidade em si, mas esta como origem para pintura, como vê o estabelecimento vinculando o real e sua arte, ainda mais por constar nela, por seu desenho, seu traço, uma execução extraordinária do que vemos como realidade? É proposital este real da pintura confundindo o espectador e a sua visão que ele tem da realidade que ali está sendo representada?

Mesmo sendo uma pintura realista, alusiva, referente, eu procuro sempre deixar uma margem para a imaginação do observador.

Você começou gráfico (há passagem sua como designer, programador visual), crítico, irônico, de beleza estranha ao mostrar a banalização da vida e da morte, do prazer e da dor, com uma visão que colocava em primeiro plano as obsessões, os fetiches, as exceções, percorrendo o simbólico, e, para mim, com um humor bem preciso (humor negro?) ao tratar tudo isto. Sente ainda a sua obra dentro deste percurso?

Então, como falei anteriormente, na composição geométrica a luz e a sombra são as protagonistas em lugar da narrativa irônica.

Como é criar uma pintura figurativa, com as suas características pessoais, tendo como base a fotografia, de registro objetivo, pintura narrativa, num período onde as artes plásticas caminham por instalações, vídeos, performances? Seguindo o assunto, como vê a arte hoje, no Brasil e no mundo?

Cada um deve seguir o seu caminho independentemente de tendências. É nisso que aposto. Essa história do novo já ficou muito velha. O que eu sei é que não é fácil ser artista em época nenhuma. Nós, artistas, temos que aprender a conviver com a eterna angústia da ideia e da identidade. A arte é, e sempre será, fundamental.

Na sua trajetória, há um período de Estados Unidos e França. Você nasceu em Olinda, Pernambuco, e mora em São Paulo. O que estes lugares em sua realidade trazem para a pintura que você faz? Inquietude? Desafio? Indagações? E o que cada um representa para sua experiência de vida, nascido em 1957, e de artista, com mais de 25 anos de caminhada?

Eu tenho um pouco mais do dobro de 25 (risos). Acho que a tensão de ser um artista jovem ou mais velho será sempre a mesma.

Nasci em Olinda, Pernambuco, e fui levado (ainda bebê, pelos meus pais) para o Rio de Janeiro, onde passei a maior parte da minha vida. Hoje moro em São Paulo e me sinto em casa. Os lugares onde vivi e aqueles por onde passei foram importantes na minha formação e se refletem de muitas maneiras no meu trabalho.

 

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