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EAO
Cidade
Salvador, Bahia
Nascimento
1923
Perfil
Pintor, Escultor, Desenhista

Criando objetos, murais, painéis, relevos, desenhos, pinturas, e principalmente esculturas, utilizando tanto a madeira como o ferro, o latão, outros metais, ou a resina de poliéster, fibra de vidro, sucata, metal polido, pedra-sabão, pedra-grafite, com apropriações, montagens e remontagens, de onde surgem esculturas giratórias, Exus, Cristos, figuras, móbiles, esta é uma arte que vem sendo renovadamente criada, reelaborada em seu senso táctil, sem dependência temática, referência estilística, mas de intenso relacionamento com o mundo e as pessoas por sua experiência da forma e de intensa vitalidade e criação.

Desde o início de sua trajetória, realiza trabalhos em locais públicos, experimentando um contato direto de sua arte com o público, através de inúmeras obras urbanas, esculturas de grande porte e murais, em ruas, praças e avenidas, edifícios públicos e empresariais, mas também realizando mostras em museus, com trabalhos nos acervos dos Museus de Arte Moderna de Nova York, Jerusalém, Bahia, Rio de Janeiro, São Paulo, Pampulha em Minas Gerais; Museu de Arte de Jerusalém, Rio Grande do Sul, Bahia, Feira de Santana, São Paulo; Pinacoteca do Estado de São Paulo; Museu Afro Brasil; Fundação Armando Álvares Penteado; Museu Chácara do Céu – Fundação Raymundo de Castro Maya; Museu de Arte Sacra da Bahia; Museu da Cidade do Salvador; Museu de Antropologia da Bahia; Núcleo de Artes do Desenbahia; Museu Hermitage (Rússia); Walker Art Center (Minneapolis, Estados Unidos).

Um dos pioneiros da arte moderna na Bahia e um dos grandes artistas brasileiros do século XX, Mario nasceu em Salvador, Bahia (onde vive), em 13 de abril de 1923. Escultor, gravador, desenhista, em 1947 realizou sua primeira exposição individual, no Edifício Oceania em Salvador. De 1947 a 1949, residiu em Nova York (Estados Unidos), onde era aluno do escultor iugoslavo Ivan Mestrovic, na Escola de Belas Artes da Syracuse University.

De volta a Salvador, abriu um ateliê-oficina, que impulsionou o movimento de arte moderna na Bahia. Em 1950 iniciou pesquisa das fontes de artes popular e erudita no Norte e Nordeste do Brasil. Participou do programa Artist in Residence, em Berlim (Alemanha), realizando várias exposições nos anos de 1964 e 1965. Representou o Brasil na XXX Bienal de Veneza, como escultor convidado, e na IV Exposição Internacional da Escultura Contemporânea no Museu Rodin, Paris, França, ganhou prêmio na I Bienal de São Paulo, em 1951. Participou da XXVI Bienal de Veneza; da IV Exposição Internacional de Escultura Contemporânea no Museu Rodin, Paris; da I Exposição Bienal Internacional de Gravura de Tóquio; da I Bienal Nacional de Artes Plásticas, em Salvador, com sete esculturas criadas na proporção do claustro do Convento do Carmo, formulação até aquele momento inovadora em conceito e forma, com suas peças medindo de três a sete metros de altura.

É doutor em Belas Artes pela UFBA. Em 1981, coordenou a implantação do curso de especialização em Gravura e Escultura na Escola de Belas Artes da UFBA, em Salvador. Nessa mesma cidade, em 1994, foi inaugurado o Espaço Cravo, no Parque Metropolitano de Pituaçu, com 50 esculturas ao ar livre sob a forma de objetos tridimensionais – estáticos, móveis, e sonoros –, e uma galeria para trabalhos em várias técnicas, recentemente fechada (2017) por um insano ato estatal.

Mas Mario Cravo Júnior não para de criar novos trabalhos. Desde o começo suas esculturas e relevos em aço, em ferro, em cobre, e em latão, ou suas pinturas e desenhos trazem este ímpeto, esta não acomodação, uma criação que não o deixa quieto, sempre sendo ultrapassado pelo interesse vivo por novos materiais, por um novo foco na sua atenção, como foi recentemente com a pedra-grafite, e dele a criação de pequenos objetos. A cada novo elemento, um novo desafio. Parece ser este o seu lema. E a vida, nela a arte, incessantes desafios. Uma permanente pesquisa e indagação. Uma vitalidade sem par na arte baiana desde que iniciou com desenhos e esculturas sua trajetória nas artes plásticas, trajetória que o leva durante a caminhada a ser admirado diariamente por quem vive e transita na Bahia, nas muitas obras públicas de sua autoria espalhadas em ruas, praças e avenidas.

Esta incessante busca de novas possibilidades, de criar e recriar, de fazer e desfazer é uma não aceitação do seu próprio trabalho pelo desejo incansável de novos horizontes, uma rebeldia inerente à personalidade, ou uma briga permanente contra a acomodação que qualquer um pode ter ao não se fincar num caminho já trilhado e de sucesso?

É muito difícil este questionamento de se autorreferir. Todo questionamento sobre o processo de autodefinição acaba tratando do que gostaríamos de ser e não do que somos. É uma somatória e talvez eu deva isso a uma característica da minha personalidade. Sou essencialmente curioso. Isso faz parte da minha vida, e está na minha terra, na minha primeira infância, uma curiosidade que eu tenho pela mecânica, pelas instalações, pelas máquinas, os mecanismos. Isso sempre foi para mim um momento de diversão e, ao mesmo tempo, então como se eu tivesse um laboratório existencial, uma pedra filosofal.

É uma espécie de procura de uma combinação que não existe, quem sabe, uma procura de mim mesmo, eventualmente achado, mas pelo menos procurado, mas é a procura de mim mesmo, o que no fundo é a procura de minha gente, do meu povo, da minha tradição, da minha civilização.

Todas as vezes que fiz este questionamento de caráter social, sociológico ou antropológico, me vem à mente que queiramos ou não, modernamente encarados ou não, nós somos ainda aqueles indiozinhos de Anchieta e de Vieira, nós estamos ainda, não sob a proteção, mas sob a sombra ou o reflexo de nossa tradição cultural, que implica no ser fundamental, ou como diria Rousseau, no paraíso perdido.

Esse meu laboratório tem também a ver com este suposto mundo novo que é também o mundo velho. Nós falamos sempre neste paradoxo do que é o futuro. Quando se chega à minha idade, nós temos a possibilidade de encarar o que é o passado, o presente e um pouquinho do futuro.

Mas as coisas parecem que só acontecem quando acontecem, ou seja, a vivência e a experiência são uma somatória de um eventual fluxo da mudança para o enriquecimento do ser humano. Talvez através do interregno, do contraponto, possam acontecer algumas das coisas que tentamos algumas dezenas de anos acontecerem. Eu vivo nessa expectativa. Este é o meu temperamento. Eu sou um insatisfeito.

Neste eu não aceito, a primeira vítima, vítima entre aspas, da minha rebeldia, sempre sou eu mesmo, porque se ela me compensasse, se ela fosse em si mesma um objetivo, uma finalidade, mais do que objetivo, entendeu, eu estaria me elevando à categoria de super-humano. Pelo contrário, eu me sinto cada vez mais ligado a este processo de transição, de modificação, essa dinâmica. Talvez por isso sejamos tão ansiosos pela segurança.

Eu me habituei ao risco de tentar. Não é superar a mim mesmo não, mas de “enriquecer” a minha própria experiência, ou seja, cada vez. Talvez seja como uma criança, ou aquela coisa simbólica da cobra comendo o rabo, cada vez que mais envelheço, mais jovem me sinto, e vêm naturalmente uns pensamentos deste momento, que são umas reflexões de um artista quando velho.

E prossegue:

Viver é transformar. Viver longos anos de vida é um exercício permanente de transformação e isto para mim significa a dinâmica da própria vida, isto através de qualquer profissão. Mas, como nosso ciclo é muito curto, para uns curtíssimos, mas outros, como no meu caso, que não é tão longo. Ao contrário. Depende de como você encara. Mas o que é realmente estimulante é encontrar receptividade na vida, a curiosidade da vida.

Esta vitalidade que você vê é uma demonstração da continuidade, da intensidade que liga alguém ao nosso temperamento, à nossa sensibilidade, à nossa maneira de ver o mundo. Daí, eu posso falar, aos 85 anos, que eu sinto energia, sou energizado por esse laboratório, esse número de materiais e de formas diferenciados, essa tentativa de combinações.

Talvez a minha curiosidade seja um acompanhamento deste viver anexando sempre a cada dia uma nova combinação à procura do eterno. A coisa começa a se envolver e passa a não existir mais esta separação de gerações. São etapas que se fundem. É uma espécie de pragmatismo separarmos tudo em compartimentos. Acho que isso é um fluxo que recebemos, vindo mais ou menos por afinidades de cada qual, mas no fundo é um grande mar para navegarmos, ou que navegamos. Este mar é uma herança que recebe um do outro, que na realidade não tem começo nem meio nem fim, é um fluxo. Assim sigo o jovem velho ou o velho jovem, tanto faz como tanto fez. É minha maneira de ser. O passado para um homem que vive a extensão de vida que eu tenho é um mundo extremamente misterioso, indefinido de certa forma. Viver é uma permanente surpresa.

Mário Cravo Júnior nasceu em 13 de abril de 1923, em Salvador, Bahia. Graduou-se em Belas Artes pela Universidade Federal da Bahia e, em 1947, seguiu para os Estados Unidos como aluno especial do escultor iugoslavo Ivan Mestrovic, na Universidade de Syracuse. Com a volta, como livre docente, exerceu interinamente, na Universidade Federal da Bahia, a cátedra de gravura, talho doce, água-forte e xilografia, sendo logo depois professor de nível superior na disciplina escultura em madeira, pedra e metais.

Tornou-se doutor em Belas Artes e professor adjunto na Escola de Belas Artes em 1966. A partir de 1976, executou o projeto inicial de pós-graduação na área de Artes Plásticas. Em 1981, coordenou a implantação do curso de especialização em gravura e escultura, tudo isso na Universidade Federal da Bahia.

Dentro do Espaço Cravo, Mário anda nos caminhos laterais da lagoa, e, após mostrar o que está fazendo, de apresentar um a um os operários que o acompanham, diz:

Eu aprendo com estes homens que estão a trabalhar comigo. Tem peças que eles contribuíram. Ou seja, é a inserção, o diálogo. Eu sinto o cuidado, a satisfação, o carinho com que eles participam do que faço, o que eles apreendem ao contribuir com um pedacinho, e isto vale mais, muito mais.

Ao ouvir um comentário sobre o local, diz:

É uma realização de um sonho em vida, este ateliê. Estou aqui há quatorze anos como se fossem quatorze dias, e, se este espaço passasse a não existir amanhã, eu lhe diria que estou plenamente satisfeito com a experiência e ainda vou mais um pouquinho: se tivesse que repetir, eu não mudaria absolutamente nada. Não sei se isso é excesso de autoconfiança ou que coisa misteriosa é essa, mas é o que sinto. Mas eu estou com ideia de querer transformar isso aqui, o Espaço Cravo, num memorial, é a nova terminologia. E se for possível esta proposta, trazer com isso uma experiência que tivemos cinquenta e poucos anos atrás com a Lina Bardi, que tentamos, mas infelizmente não houve possibilidade, que é o processo artesanal de um centro de estudos em trabalhos artesanais, a possibilidade de fazermos um levantamento dos mestres artesãos e fazê-los produzir junto com jovens designers universitários.

Quando será a próxima exposição? E os trabalhos serão em cobre, aço e latão, ou os em pedra-grafite?

No próximo ano. Não sei como será, pois em cinco ou seis meses pode acontecer um outro elemento e mudar tudo. Minha disposição é sempre o momento. O momento em que se vive. Expor é nos expor. É nos desnudarmos para aqueles outros que se interessam, por você como homem, como artista, como criador.

(entrevista / setembro de 2007)

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