Não foi o fogo, mas a água, que atravessou os olhos de todos os seres do mundo e, por isso, transporta agora, em cada partícula sua, as memórias de cada um deles. De tal forma que as fontes, cachoeiras, cascatas e até as cataratas se tornaram o espectáculo dessas memórias, na versão positiva do que seria um campanário: uma torre única, solitária e singular, a aparecer a horas certas. E assim, ao contrário do silêncio sepulcral interrompido pontualmente pelos sinos, nas cachoeiras ouve-se o júbilo contínuo: espírito concentrado e despojado, a cem quilómetros por hora, ilimitado na sua etiqueta. Como se o som da água em queda fosse o som da História, a nossa, claro, a dos Comuns. Nas cúpulas da igreja-matriz de Porongopolis, instalaram-se as mais luminosas cabaças encontradas naquelas terras, abrigadas entre trepadeiras douradas de final de tarde, a hora dos abraços. As suas flores amarelas premeditam a bonança, figura do auspicioso, na resolução de quem continua, apesar de tudo, continua.
Por já terem sido reservatórios de água, as cabaças guardam agora todos os mistérios da vida e da morte, o que significa que o som do berimbau chegará com os enigmas do planeta, projectados em seu redor a partir de ondas sonoras invisíveis. Se a memória começa nos olhos, então o futuro começa nos ouvidos. Já o presente ocupa consistentemente a boca, em companhia do seu mais forte músculo, a língua, que não descansou uma única vez. A cidade-orquestra de Porongopolis oferece as informações do mistério original do tempo, numa configuração abundante e emocionada. Os motoboys, a circular pela baixa, a conectar desejos, verificam o tubo de escape antes de arrancar, um agogô ou o instrumento oficial da convocação do futuro, para depois subirem a ladeira, na clara certeza de que todas as corridas constroem a pauta geral da paisagem sonora, enquanto se agarram ao guiador-berimbau.
O único fabricante de agogôs da cidade trabalha sempre em jejum, porque gosta de trabalhar sozinho e, se comer, terá o estômago a fazer-lhe companhia. De manhã, antes de dar início ao
polimento, passa as mãos pelas cabaças douradas colocadas na entrada da oficina, que encontrou no mesmo campo das da igreja, e as pálpebras por água fresca. Já sem memórias nos olhos e
sem calor nas mãos, pode estrear a lide do dia. Não foi a água, foi o fogo, que atravessou os sonhos de todos os seres do mundo e, por isso, leva em cada repetição sua as ansiedades de toda a gente. Raios, trovões e relâmpagos são a extrapolação dessa agonia, uma visão optimista para uma noite de apagão em lua nova. Os atabaques, que encerram simultaneamente luto de árvore e luto de animal, alimentam-se de pequenas doses de fogo para dignificar a sua madeira e o seu couro, libertando assim toda a humidade que se tenha acumulado e também todas asrecordações, principal fonte ansiogénica. A exposição Poema do Atabaque, de João Mouro, concretiza a comoção de Porongopolis. A sua imagem, inicialmente musical, desdobra-se numa tradução constante entre meios, do sonoro para o pictórico e para o tridimensional, numa visita a esse futuro auferido pela sonoridade que chega aos ouvidos. As pinturas de Mouro profetizam a pólis resolvida, capaz de dissolver as incongruências da sociabilidade através da integração de tecnologias de várias cronologias, geografias e saberes. É a dignificação de todos os conhecimentos que ficciona a cidade, novamente desejada pelos Comuns. O contacto com as esculturas-instrumento, resgatadas da pintura para a tridimensionalidade, confirma a paisagem sonora em tempo real, na contemporaneidade, como uma provocação querida. A possibilidade de serem simultaneamente artefacto e objecto que vem constitui o lugar de quimera que o trabalho de João Mouro nos oferece: a hipótese de transformar símbolos e significados, abrindo caminho à ideia de que outros sistemas iconográficos são possíveis e brilhantes na sua representação. É preciso continuar.
Filipa da Rocha Nunes
fevereiro de 2026