Jess Vieira, em “A anca é a esquina do corpo”, propõe um percurso, um movimento que prepara o mergulho em sua mais recente produção.
sonhar o mar,
diante do rio quase terra, coberto por folhas secas. Chove uma chuva fina, semelhante ao choro dos montões de cigarras que cantam o quintal. O exercício requer um esforço de corpo inteiro: sentir o sal na língua, a brisa na pele, o emaranhar dos cabelos. No quintal de Jess, mora um oceano. Esse ser imenso, infinito, que ao contrário do rio, não dá pistas de se esvaziar.
Nascida das águas é um imperativo inevitável, e também título de uma das obras que integram a bacia hidrográfica desta exposição. Jess Vieira, natural de Gama (DF) lugar de terra ácida, hoje vive em Salvador. Foi no sul da Bahia que a artista aprendeu a nadar, num banco de areia, em sua primeira e única viagem com a mãe na infância, recorda. Tem algo de extraordinário aprender a nadar no mar, vindo de uma terra-cerrado. Na adolescência, matar aula para ir nas cachoeiras “tinha um misto de coragem e imprudência”. Já com o pai, conheceu rios Goiás adentro.
caminhar,
subir as escadas, se encontrar com o horizonte azul recortado pelas verticais do desenho urbano. Permitir-se o descanso, habitar a linha tênue de ritmo sutil, é ela quem separa e faz encontrar a terra e o céu.
Em sua primeira individual nesse espaço, a escolha por ocupar o segundo andar da galeria é consciente. A artista propõe um percurso, um movimento que prepara o mergulho em sua mais recente produção.
dobrar a curva,
o corpo se inscreve na paisagem. Os quadris guardam segredos da criação do universo. É o leito do rio que protege o mistério da vida. Não resiste margem no duo corpo e paisagem — aqui eles formam o mesmo território. O trabalho se move como correnteza, guiado por um saber que existe e não se explica, ou melhor, que revela uma confiança no que é invisível e ainda, indizível.
É atravessada por uma linhagem de mulheres que transformam sensibilidade em forma — Agnes Pelton, Otobong Nkanga, Hilma af Klint, Ana Mendieta. Cada uma da sua maneira: Pelton oferece um recolhimento etéreo, quase meditativo; Otobong ensina a honrar o caos e o tempo de cada vida que cabe numa artista; Hilma expande o gesto para fora, em grandeza espiritual; Mendieta devolve o corpo ao mundo como rito e terra. Mais que referências, são presenças que reverberam como campo vibrante, uma constelação subterrânea que alimenta o curso da criação.
escorrer as águas,
desmanchar as fronteiras entre corpo humano e natureza é tanto necessidade quanto destino. A pintura se torna receptáculo desse atravessamento. Em suas camadas, Jess encontra um cosmos — um modo de pertencer, mesmo em constante deslocamento. Como pertencer a um lugar se o corpo é, a todo instante, reinventado? Como habitar a si mesma quando tudo se move?
Jess pinta rudupiando, como as flores de ipês que já sabem seu caminho no fim de setembro. Em Uma gota d’água a indivisibilidade corpo-paisagem é evidente. Dois planos se desenham a partir da linha horizontal, tal qual a linha do mar-céu. Um refletindo o outro, o fora e o dentro enredam uma relação íntima, um embaraço, uma água gestando a outra e vice-versa. Pra fazer tempestade em corpo d’água, uma lágrima basta.
Olho no olho não mostra, mas evoca: o encontro das copas das árvores, o desenho das trompas uterinas, dois amantes que se entreolham em quietude. O que se revela é a própria reciprocidade da vida — um contínuo espelhamento, o que vê e o que é visto, o que ama e é amado, talvez aí nesse entremeio more deus.
ajustar-se para o avesso das coisas,
arriscar-se nas inteirezas, sentir o espaço se abrindo em instâncias de cor e silêncio. As obras criam pausas, distâncias, aproximações. Pedem escuta. As cores ressoam uma espécie de pulsação antiga, uma lembrança de chão e de água, que tem como guias a honestidade do tempo e o abraço da experiência.
Em Physostegia Ariana (planta desobediente), Vieira subverte a docilidade sugerida pela Physostegia virginiana — a “flor obediente” — e semeia um gesto de insubmissão. Sua flor é corpo que recusa a forma imposta, dobra o caule para outros ventos, anuncia um florescer que escolhe o próprio rumo.
volver ao rio,
na ribanceira, a voz do pai que lê a poesia da artista vira reza, ecoa, espirala. Pedir licença para mergulhar no rio, subir a serra, pisar o chão. Em EU POSSO NÃO TER TETO, MAS EU TENHO CHÃO, performance apresentada em setembro no Sesc de Feira de Santana, Vieira entrelaça sua voz às das avós e da mãe, tecendo uma teia de sussurros, herança. O corpo torna-se ponte entre tempos: canta e invoca, reinscreve o passado e o futuro no presente. Nesse sentido, “O olhar e a voz dos antepassados asseguram a existência, pois sua lembrança garante a produção da própria memória”, como ensina Leda Maria Martins, no capítulo que arremata, mas não finaliza Performances do tempo espiralar: poéticas do corpo-tela, 2021, p.213.
Gravado no rio São Bartolomeu na primeira viagem solo da artista, o vídeo é pintura: triangula a natureza, primeiro plano verde, segundo plano condição humana-animal, terceiro plano o chão-céu.
redemoinhar o tempo,
rio-mar-rio, começo-meio-começo. Há algo na prática de Jess que continua a nascer e gira em confluências. O mistério que a envolve é o mesmo que move as águas: insistente, vital, incontornável, quero crer.
7 atos d´agua
Julia Maria