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Mestre Didi

Abertura
07 de abril de 2018

Horário
19h

Exposição
08 de abril a 30 de abril

MESTRE DIDI EM SÃO PAULO NA ALMEIDA e DALE GALERIA DE 7 DE ABRIL ATÉ 28 DE MAIO

A partir do dia 7 de abril, a galeria paulistana Almeida e Dale (Rua Caconde,152, Jardim Paulista) apresenta ao público Mo Ki Gbogbo In – Eu saúdo a todos, um breve panorama do percurso artístico de Mestre Didi. A mostra é realizada em parceria com a Paulo Darzé Galeria, de Salvador, e fica aberta ao público até dia 28 de maio.

Com curadoria de Denise Mattar e Thaís Darzé, a exposição toma como título uma frase comumente usada por Mestre Didi, que sempre se propôs a juntar as diversidades, em busca da harmonia. A mostra reúne um conjunto de 48 obras do artista. O recorte curatorial valoriza os anos 1980, período áureo de sua produção, quando conseguiu imprimir sua marca pessoal e inventiva ao processo de recriação das tradições da cultura afro-brasileira. Mas há raridades como a escultura em madeira Yao Morogba, de 1950.

Batizado de Deoscóredes Maximiniano dos Santos, o artista foi um dos mais importantes sacerdotes afro-brasileiros do país, responsável por traduzir a visão de mundo africana e sua experiência de vida, utilizando a arte como suporte. “Expressões culturais de origem africana, em especial da região do Benin, se consolidaram em Salvador através de séculos de estratégias de sobrevivência, tornando-se presentes no cotidiano. É neste cenário de ebulição da cultura negra, nessa cidade que é berço do Candomblé e das tradições africanas e nesse contexto religioso ímpar que surge Mestre Didi com sua cosmovisão, que vai às origens para dialogar com a atualidade”, afirma Thais Darzé.

Concebidas de acordo com uma sabedoria iniciática, suas esculturas possuem texturas, matérias, formas e cores específicas, cada qual com o seu significado. As formas de suas obras expressam a visão do mundo nagô, construído numa dinâmica de mobilização e circulação do axé, a energia vital. Suas elaborações, por sua vez, derivam dos emblemas dos orixás do Panteão da Terra: Nanã e seus três filhos míticos, Obalauaê, Oxumaré e Ossain.

“No Ocidente, somos herdeiros do pensamento racional, cartesiano e individualista, tomando-o como sinônimo da verdade. Durante muito tempo, apenas a arte ocidental era considerada Arte, posição prepotente ainda hoje preconizada por alguns setores do circuito artístico”, aponta a curadora Denise Mattar. “A cultura negra é plural, não compreendida como uma unidade oposta ao mundo exterior. Cada ser carrega em si a família, os ancestrais e as entidades divinas, trocando com seus pares a energia vital. Nesse sentido, a arte de Mestre Didi é uma expressão disso e integra-se, portanto, a essa cosmovisão”, completa.

Tradição e contemporaneidade, religião e arte: a produção artística do baiano Mestre Didi (1917-2013) é permeada por dualidades. Um dos raros artistas afro-brasileiros a ter pleno reconhecimento da crítica de arte nacional e internacional, Didi possui um trabalho ligado aos objetos sagrados do culto do Candomblé e é comumente referido como sacerdote-artista.

A exposição traz também referências visuais, como ibirís e xaxarás originais, depoimentos de Mestre Didi, além de fotos de artistas com quem manteve relações ao longo da vida. Entre eles, Pierre Verger e Mario Cravo Neto. A ideia é proporcionar ao visitante um mergulho no imaginário afro-brasileiro. A mostra será complementada por um catálogo, publicação que reunirá não apenas obras da exposição, mas textos das curadoras e uma cronologia ilustrada.

Sobre Mestre Didi

Nascido em Salvador e criado no âmago do Ilê Axé Opó Afonjá, Deoscóredes Maximiliano dos Santos era filho de Maria Bibiana do Espírito Santo, a Mãe Senhora, uma das mais importantes ialorixás do Brasil e uma das grandes responsáveis pela legitimação do Candomblé como prática religiosa no país, tendo recebido, em 1965, o título de Mãe Preta do Brasil.

Descendente da linhagem dos Axipá, uma das sete famílias fundadoras da cidade de Ketu, na Nigéria, Mestre Didi aprofundou a relação entre ancestralidade e cultura, atuando em três níveis complementares: sacerdote, escritor e artista.

Como artista iniciou sua carreira em 1964, com uma exposição individual na Galeria Ralf, em Salvador, seguida de apresentação na Galeria Bonino, no Rio de Janeiro. São várias suas mostras coletivas e individuais no Brasil e no exterior (Estados Unidos, Argentina, Nigéria, Alemanha, França, Inglaterra, Gana, Senegal). Teve a Sala Especial dedicada a ele na 23ª Bienal de São Paulo, em 1996. Em comemoração aos seus 90 anos, o Museu Afro Brasil, em São Paulo, realizou, em 2008, a mostra Mestre Didi: O Escultor do Sagrado, com curadoria de Emanoel Araújo.

Sua obra registrada em livros, em vários idiomas, e foi objeto de várias premiações: 1967, Afro-Brazilian Sacred-Art – Didi dos Santos, Nigeria Trenchard Hall, Ibadan, Nigéria; 1968, Exposição Internacional de Arte Afro-Brasileira, Museum of Antiquities, Lagos, Nigéria; 1969, Exposição Internacional de Arte Afro-Brasileira, sala especial, Museu Dynamique, Dacar, Senegal; 1969, Exposição Internacional de Arte Afro-Brasileira, Ghana National Museum, Acra, Gana; 1970, Art et Culture Afro-Brésiliens, sala especial, Palácio da Unesco, Paris, França; 1971, Afro-Brazilian Art, Africa Centre, Londres, Inglaterra; 1988, A Mão Afro-Brasileira, no Museu de Arte Moderna de São Paulo; 1989, Mestre Didi, Magiciens de la Terre, sala especial, Centre Georges Pompidou, Paris, França; 1989, Art In Latin América, Hayward Gallery, Londres, Inglaterra; 1994, Arte e Religiosidade Afro-Brasileira, 46ª Feira do Livro, Frankfurt, Alemanha; 2002, Brazil Body and Soul, no Guggenheim Museum, Nova York, entre outras.

A Paulo Darzé Galeria realizou anteriormente mostras de Mestre Didi na SP Arte, edições de 2007 (21 obras) e 2017 (25 obras), além de ter realizado em outubro de 2014 uma exposição de seus trabalhos na Frieze Masters em Londres.

MESTRE DIDI – MO KI GBOGBO IN – Eu saúdo a todos
Texto de Denise Mattar

Em 1915, era publicado em Leipzig, Alemanha, o ensaio Negerplastik (Escultura Negra), do poeta e historiador alemão Carl Einstein. Na época o livro foi um marco, porque sua abordagem conferia à arte africana o estatuto de arte de primeiro nível, ignorando a classificação que até então a restringia a mero objeto etnográfico. Einstein fazia uma análise de esculturas, máscaras, efígies, relicários, bustos e cabeças, ressaltando as soluções espaciais encontradas na escultura africana e sua semelhança com as invenções dos modernistas, notadamente as reverberações no Cubismo de Picasso. Percebendo a complexidade da arte africana e a dificuldade de compreensão dos mecanismos de sua construção, recomendava cautela na formulação de opiniões: “Quanto mais me ocupo da arte negra, mais me sinto penetrado de um penoso sentimento de incerteza, que demanda prudência”.

Faço minhas as palavras do crítico, reiterando a complexidade que se oculta na aparente simplicidade da obra de mestre Didi, cujo alcance tenho a consciência de que apenas vislumbrei ao preparar a exposição MESTRE DIDI – Mo Ki Gbogbo In (Eu saúdo a todos), realizada em parceria com Thais Darzé, para a Galeria Almeida e Dale.

O título da mostra replica a frase usada por Mestre Didi na abertura de suas falas, em palestras, reuniões e exposições, enfatizando a forma acolhedora com que ele conduziu sua vida e obra. Inquestionavelmente considerado uma das mais importantes lideranças no processo de inserção na sociedade da cultura afro-brasileira, o artista sempre se propôs a juntar as diversidades, sem atritos nem ódios, destacando sua busca pela harmonia.

Nascido em Salvador, em 1917, com o inusitado nome de Deoscóredes Maximiliano dos Santos, Didi era filho de Maria Bibiana do Espírito Santo, a Mãe Senhora, uma das mais importantes ialorixás do Brasil. Ela foi uma das grandes responsáveis pela legitimação do Candomblé como prática religiosa no país e recebeu, em 1965, o título de Mãe Preta do Brasil. Criado no âmago da organização religiosa dirigida por sua mãe, o Ilê Axé Opô Afonjá, o jovem Didi incorporou à sua vida uma cosmovisão afro-brasileira, e, bem cedo, viria a ser chamado de Mestre. Vale observar que o Candomblé, deriva das tradições africanas Nagô, recebidas dos escravos oriundos da região do Benin, Nigéria, mas que sua prática se reveste de características rituais próprias que foram incorporadas no Brasil.

Descendente da linhagem dos Asipá, uma das sete famílias fundadoras da cidade de Ketu na Nigéria, Mestre Didi aprofundou com dignidade e sabedoria a intrínseca relação entre ancestralidade e cultura. Seu objetivo era promover a sistematização, conceituação e difusão do patrimônio tradicional Nagô. Para atingir esse intento atuou em três campos interligados, exercendo as atividades de sacerdote, escritor e artista

Como sacerdote Mestre Didi era uma autoridade religiosa indiscutível. Recebeu, ao longo de sua vida, os mais respeitáveis títulos no âmbito do Candomblé, entre eles: Alapini (Sumo Sacerdote do Culto dos Egungun), Assogba (Sumo Sacerdote do Culto Obaluaiyê), Baba Oni Xang (título relacionado à sua família Axipá, conferido pelo Aleketu, rei de Ketu, no Palácio de Ketu, Benin). Conhecia, portanto, profundamente, o universo mítico tradicional africano.

Devido a uma interdição derivada desses cargos religiosos, Mestre Didi não dava entrevistas e preferia registrar por escrito suas reflexões. Em 1946 publicou o vocabulário “Iorubá tal qual se fala” e, em 1962, “História de um terreiro Nagô”, prefaciado por Muniz Sodré e Roger Bastide, trabalhos fundadores de estudos universitários na Bahia. A partir de meados de 1960 elegeu como porta-voz sua segunda esposa, a antropóloga Juana Elbein, com a qual realizou trabalhos de pesquisa comparada entre a África Ocidental e o Brasil, referentes à tradição Nagô. Publicou ainda uma longa série de livros de contos afro-brasileiros, entre eles: “Contos Negros da Bahia” e “Contos do Mestre Didi”, dramatizados na série “Origens” da Radio MEC – Fundação Roquete Pinto, em 1980, e “Porque Oxalá usa Ekodidé”, encenado pelo bailarino americano Clyde Morgan, na Universidade Federal da Bahia, Salvador, e no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, RJ, na década de 1970.

Como artista plástico Mestre Didi (Salvador, 1917- Salvador, 2013) é um dos raros artistas afro-brasileiros que teve um pleno reconhecimento da crítica de arte nacional e internacional. Seu trabalho, ligado aos objetos sagrados do culto do Candomblé, realiza uma síntese expressiva do repertório coletivo da ancestralidade africana, e, ao mesmo tempo, transcende esses códigos permeando-os de criatividade e de um acento brasileiro.

Mestre Didi iniciou sua carreira em 1964, com uma exposição individual na Galeria Ralf, Salvador, seguida de apresentação na Galeria Bonino, RJ. A partir daí passou a expor com regularidade em Buenos Aires, São Paulo, Rio de Janeiro, Londres, Nigéria e Paris, destacando-se a Sala Especial dedicada a ele, na 23ª Bienal de São Paulo, 1996. Por ocasião da comemoração dos seus 90 anos, o Museu Afro Brasil, SP, realizou, em 2008, a mostra homenagem: “Mestre Didi: O Escultor do Sagrado”, com curadoria de Emanoel Araújo. O artista também participou de algumas das mais emblemáticas exposições coletivas nacionais e internacionais como “A Mão Afro-Brasileira”, no Museu de Arte Moderna de São Paulo, 1988; “Magiciens de la Terre”, no Centre Pompidou, Paris, 1989; “Brazil Body and Soul”, no Guggenheim Museum, Nova York, 2002, entre outras.

A exposição MESTRE DIDI – Mo Ki Gbogbo In – Eu saúdo a todos, reúne 48 obras do artista apresentando alguns trabalhos raros, do início da sua produção, como a escultura em madeira Yao Morogba, de 1950, e peças realizadas na década de 1960, mas seu foco está concentrado nas obras da década de 1980, período áureo da produção do artista, quando Mestre Didi conseguiu imprimir ao seu processo de recriação das tradições da cultura afro-brasileira uma marca pessoal e inventiva.

Suas esculturas expressam uma forma de pensamento específica, que propõe outra maneira de se relacionar com o real. Ao abordar seu trabalho é preciso ter em mente que a cultura negra é plural, não se compreende como uma unidade oposta ao mundo exterior. Cada ser carrega em si mesmo, a família, os ancestrais e as entidades divinas e integra o mundo trocando com esses parceiros a energia vital. A arte negra é uma expressão disso e está integrada à uma cosmovisão de difícil entendimento no Ocidente, herdeiros que somos do pensamento racional, cartesiano, individualista e pretensioso.

As esculturas de Mestre Didi são realizadas com textura, matéria, formas e cores combinadas de acordo com uma sabedoria iniciática, na qual cada elemento tem um significado. Na definição do próprio artista elas são “recriações” do mundo mítico do Candomblé, que revelam valores estéticos associados ao sagrado, na justa medida em que essa revelação é permitida.

O artista usa como base de seu trabalho as chamadas “ferramentas” do culto do Candomblé: os xaxarás e os ibirís. Suas recriações derivam, majoritariamente, dos emblemas dos orixás do Panteão da Terra, que reúne Nanã e seus filhos míticos: Obaluaiê, Oxumaré e Ossain.

De forma sintética, em acordo com o prof. Roberval Marinho, Òbàlúaiyé significa a putrefação, a transformação da matéria, tendo como símbolo o Sàsàraà; Nàná é a geradora de todas as coisas, tendo como emblema o Ibiri; Òsumaré manipula as energias que transportam e impulsionam o ciclo vital. Em seu conjunto, enquanto trilogia, esses Òrisà transportam o mistério, a morte e a vida (…). Osáyin é a entidade das folhas, de virtudes medicinais ou litúrgicas. O seu símbolo é uma haste de ferro, encimada por um pássaro, tendo ao redor seis outras hastes. (SODRÉ p. 165-167).

Com relação à forma, as recriações de Mestre Didi expressam a dinâmica de mobilização e circulação do axé (energia vital). Oxumaré, por exemplo, é representado pela cobra píton; a serpente que sai das profundezas da terra, atinge o céu, com o arco-íris, e retorna à terra. Seu movimento está relacionado ao fluxo dos destinos e à diversidade da existência. A partir dessa simbologia Mestre Didi recria as suas próprias serpentes míticas, e elas parecem vivas e frementes em suas contorções vibráteis, emanando pura energia. Da mesma maneira o artista trabalha com os ibirís dando a eles novas configurações e volteaduras, que se sobrepõem à sua estrutura ritual, ou implementando as características sintéticas e hieráticas dos xaxarás .

A utilização das cores em tecidos, roupas, colares e contas aplicadas às ferramentas é outra codificação essencial do Candomblé, pois elas simbolizam a natureza e o poder de cada orixá. Contudo há divergências nas suas classificações de acordo com os diferentes especialistas. Mestre Didi, aprendeu a preparar os xaxarás e ibirís ainda muito jovem, com sua “avó” Aninha e seu pai Arsênio dos Santos, conhecido como “Paizinho”. Dominava, portanto, todos esses códigos e sabia em que medida lhe era permitido dispor do emprego das cores nas suas esculturas.

Outros elementos materiais que constituem as obras de Mestre Didi, também herdeiros das ferramentas mágicas, são os feixes de nervuras de palmeira, que simbolizam a representação coletiva dos ancestrais, o couro, que faz as uniões, e os cauris (búzios) que pertencem à simbologia de Nanã, e são relacionados aos ancestrais. Sua disposição, em cruz, “espinha de peixe”, ou lado a lado, também tem significados; colocados dois a dois, em pares opostos, por exemplo, referem-se aos ascendentes e descendentes, passado e futuro.

A partir da maneira como esses elementos se desenvolvem no trabalho de Mestre Didi podemos dizer, em conformidade com vários estudiosos, que sua obra escultórica se insere na categoria de Arte Sacra – uma Arte Sacra Afro-Brasileira. Dentro dessa perspectiva podemos traçar um paralelo da produção de Mestre Didi, com os ícones russos, que, igualmente submetidos a uma rigorosa simbologia de formas, cores e materiais, não perderam a força criadora, resultando em muitas obras primas. Entretanto, enquanto que os ícones nos remetem à austeridade do catolicismo, as esculturas de Mestre Didi exprimem a linguagem estética do Candomblé e sua dinâmica de comunicação, colorida, vibrante e calorosa.

Esse é apenas um dos paralelos possíveis (sempre questionáveis) que se poderia estabelecer com a obra de Mestre Didi, mais relacionada a um entendimento cosmológico da vida, compreensão que permeia a arte produzida em ¾ do planeta: entre indianos, africanos, japoneses, chineses, nativos do Brasil, aborígenes da Austrália, etc. Uma visão que a ciência tem, cada vez mais, mostrado estar correta, como bem observa Pierre Gaudibert, no catálogo da exposição “Magiciens de la Terre”:

O planeta Terra não é apenas a “laranja azul” contemplada pelos astronautas, ela é um ser vivo, nos dizem os cientistas, indo ao encontro de algumas crenças longínquas e vivazes do animismo, e de numerosos ensinamentos esotéricos. De qualquer modo ela é regida por mudanças incessantes e se desloca em interação com o conjunto do cosmos. (p.18)

Para a realização dessa exposição foi essencial contar com os livros: “A influência da religião afro-brasileira na obra escultórica do Mestre Didi”, de Jaime Sodré, que, além de estabelecer o percurso de Mestre Didi, transcende a análise da obra do artista, revelando as origens, evolução e características do Candomblé no Brasil, e “Ancestralidade Africana no Brasil – Mestre Didi 80 anos”, de Juana Elbein dos Santos, que, com sua abundante iconografia, permitiu povoar essas informações com imagens.

De grande importância foi também assistir ao vídeo Mestre Didi produzido pelo projeto Arte na Escola, em parceria com o SESC-TV. O documentário, apresentado na exposição, é uma raríssima oportunidade de ver e ouvir Mestre Didi, com suas palavras calmas, olhar doce e mãos sábias.

 

 

MESTRE DIDI: COSMOVISÃO DE UMA REALIDADE MÍTICA
Texto de Thais Darzé

Para alcançar o trabalho do Mestre Didi, cuja obra transita entre as artes visuais e o culto dos ancestrais da África negra, é necessário mergulhar nas raízes da cultura brasileira, baiana, em suas relações passadas e no tempo contínuo. Suas esculturas, que mesmo contemporâneas no sentido das tradições da arte ocidental, são detentoras de amálgamas que se ligam ao trânsito entre a África e o Brasil. Assim, pensar a obra do Mestre apenas enquanto objetos de arte seria um reducionismo equivocado.

Nas culturas em geral e em seus diversos tempos não é possível pensar em uma cultura absolutamente pura, tampouco elucubrar que um povo possa ser detentor de alguma legitimidade sobre outros. Mestre Didi e sua produção de objetos sacros/esculturas nos trazem justamente essa mescla antropofágica tão defendida na cultura brasileira: diria que o trabalho do Mestre é um dos mais autênticos resultados desse tipo de processo no Brasil. Didi alimenta a alma e busca fontes intrínsecas de seu universo Nagô, que revelam as forças da natureza na relação direta do candomblé e seus orixás com os povos nas duas margens do Atlântico.

É preciso, antes de qualquer coisa, descontruir alguns conceitos sedimentados pelo senso comum. O ponto de partida é se desvencilhar da ideia deturpada de uma África como um continente de uma só identidade, independentemente da região, tribos, etnias ou povos. Precisamos compreender a África em sua pluralidade e diversidade: um continente formado por diversas culturas, milhares de tribos, dialetos e hábitos diversos. Mas não é só; é preciso lembrar que essas unidades, juntas ou isoladamente consideradas, são potências culturais que continuam a moldar o modo de ver, sentir e de expressar dos mais variados povos da cultura ocidental, desde os tempos mais remotos. Outro ponto intransponível é a impossibilidade de compreender a arte africana com referenciais estéticos e conceituais que não lhe sejam própria, por uma perspectiva e visões de mundo pautadas em padrões europeus. Paradoxalmente, é a cultura europeia que é substrato histórico das várias culturas do mundo, inclusive a africana.

Deoscoredes Maximiliano dos Santos – Mestre Didi – nasceu em Salvador em 1917, filho biológico de Mãe Senhora, a terceira ialorixá do Terreiro Ilê Axé Opô Afonjá. Membro integrante desse terreiro até uma viagem à Africa Ocidental para visitar o reino de Ketú, que se espalha por Nigéria, Benin e Tongo. Após essa viagem, surge o Ilê Asipá, terreiro fundado por ele, em 2 de dezembro de 1980, quando recebeu e confirmou o título de Alapini, sacerdote supremo do culto aos Egungun. A maior parte dos terreiros de candomblé tem como razão de existência o culto aos orixás: o Ilê Asipá é de culto aos eguns, ou seja, de adoração principalmente aos ancestrais e à cultura afrodescendente. Nessa mesma viagem, Didi confirma sua descendência da tradicional família Asipá, uma das sete principais famílias que fundaram o reino de Ketú.

O maior contingente de Africanos que chegou à Bahia, foi da região do Benin, e sua religião se impôs mesmo com as proibições e perseguições. Expressões culturais de origem africana se consolidaram, principalmente em Salvador, através de séculos de estratégias de sobrevivência, tornando-se presente no cotidiano por meio da religião, da culinária, da música etc. A escravidão desterrou o negro da África, mas não conseguiu apagar seus valores e visões de mundo que sobreviveram no cativeiro, se transformando em legado, identidade cultural e motivação para produção artística.

Exemplo desse fenômeno raro de continuidade da cultura negra, levando em conta o contexto em que se realiza, temos na cidade de Salvador manifestações rituais e simbólicas, como os afoxés, a capoeira, rodas de samba etc. Nesse conjunto de manifestações, o Candomblé merece atenção especial como manifestação religiosa, prática sociocultural de rituais cotidianos: as segundas feiras de Omolu, as terças de Ogum, os Carurus de São Cosme e Damião, as festas de Yemanjá, o culto a Oxalá, os padês para Exu, os presentes de Oxum. Estes e outros rituais compõem um ciclo de cerimônias de vida social de louvor e agradecimento aos ancestrais.

É importante lembrar que o Candomblé é uma criação brasileira e que apesar da influência da cultura africana, o culto aos orixás nesse formato só acontece no Brasil. Os Terreiros são uma recriação simbólica de toda uma nação africana, são sociedades complexas com códigos de conduta, hierarquias e políticas próprias. Na África cada região cultua apenas um orixá enquanto que no Brasil cada casa cultua vários orixás ao mesmo tempo.

É nesse cenário de ebulição da cultura negra, nessa cidade que é berço do Candomblé e das tradições africanas, nesse contexto religioso ímpar, que surge o Metre Didi com sua cosmovisão, que vai nas origens para dialogar com a atualidade. É nas entranhas do tempo que cresce e se forma este artista visual de afirmações e valores afro-brasileiros e educador preocupado com a permanência da cultura Yorubá.

Nas palavras de Jaime Sodré no seu livro sobre a obra escultórica de Mestre Didi, “O Candomblé é, então, o veículo possível de sobrevivência, referência e resistência de uma cultura étnica produzida pela presença escrava no Brasil e é, também, a possibilidade de manutenção de uma identidade e solidariedade que o violento processo escravocrata não conseguiu extinguir. É, portanto, o repertório mitológico de codificações simbólicas dos Òrìsá, inspiradores, em diversos níveis, do fazer artístico de muitos, porém em gradação de conhecimentos básicos fundamentais, que vão da profundidade e domínio completo desse universo, como é o caso do Mestre Didi, aos que se limitam às informações corriqueiras, às vezes infundadas”.

Assim como na obra de Mario Cravo Jr, Mario Cravo Neto, Rubem Valentim ou Tarsila do Amaral, na obra do Mestre Didi não é diferente: também não romantiza, apenas deglute a cultura brasileira, nas suas matrizes, e as apresenta enquanto realidade transfigurada dos objetos ritualísticos de seu culto para uma linguagem contemporânea e universal. Sem esquecer a dura poesia do povo negro na Bahia, seu ponto de partida são os quatro Orixás do Panteão da Terra que compõem um grupo de orixás que estão relacionados com o elemento terra e, portanto, intimamente ligados com a ancestralidade e com o Culto aos Eguns.

Esses orixás são: Obaluaiê, que representa o princípio masculino do Panteão da Terra, filho abandonado por Nanã e adotado por Yemanjá, deus da varíola, das doenças contagiosas e da cura. Por isso, esconde o segredo da vida e da morte; Nanã Buruku, que é o princípio feminino, divindade muito antiga das chuvas, dos mangues, do pântano, da lama, senhora da morte, e responsável pelos portais de entrada (reencarnação) e saída (desencarnação); Oxumaré, que é a serpente-arco-íris, é movimento, mobilidade e atividade, seu trabalho consiste em recolher toda a água caída das chuvas, e levá-la de volta às nuvens. Representa o completo ciclo da existência; e Ossain, orixá patrono da vegetação, o grande sacerdote íntegro das folhas, na sua importância fundamental, pois nenhuma cerimônia pode ser feita sem sua presença, sendo ele detentor do axé, imprescindível até mesmo aos próprios deuses.

Para Didi, assim como para os demais escultores africanos, as obras são realidade mítica, representam um lugar de elevação e ligação com o sagrado. A importância da verticalidade e da simetria traduzem valores de natureza estética, formas totêmicas em direção ao infinito, numa busca constante de conexão com sagrado, com o mundo espiritual, o que, confirma a impossibilidade de separar o artista do sacerdote e de sua religião. Essa conectividade faz parte da visão de mundo dos africanos, portanto, de seus ancestrais. Para seu povo tudo está conectado; homem, vida, morte, forças da natureza. Tudo está relacionado ao funcionamento do cosmo e um não age sem o outro.

O artista usa como referência emblemas tradicionais do universo nagô, transmite os costumes, hierarquias, línguas, concepções estéticas, dramatizações, literatura e mitologia dos povos africanos, sobretudo a sua religião, e utiliza de profundo conhecimento simbólico para a escolha dos materiais de suas esculturas. Materiais retirados da natureza, como palhas e nervuras de palmeiras, couro, contas e búzios, e nas cores utilizadas que remetem a princípios sagrados, tendo por base o arco-íris.

Como em todo processo criativo, o imaginário pessoal do artista recria formas e novas possibilidades para suas esculturas. Didi ao mesmo tempo em que se inspira e transfigura os emblemas e símbolos de suas tradições, também é livre ao multiplicar cores e materiais que não têm propósito religioso, apenas evidenciam uma visão cultural particular. As obras surgem a partir da própria maneira do artista de ver, vivenciar e associar, para assim criar seu vocabulário escultórico contemporâneo particular.

A importância e originalidade da obra de Mestre Didi é deflagrada através da antropofagia da cultura africana para criar uma obra única brasileira. Assim como Tarsila do Amaral o fez em relação a cultura indígena, Didi posteriormente veio para nos lembrar a pluralidade brasileira e as diversas possibilidades de matrizes inspiradoras para a criação e recriação de algo autêntico, único e original lastreado em uma das culturas que deram origem ao Brasil. Oswald de Andrade afirma no seu manifesto, “só a antropofagia nos une”.

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