Na exposição “Sol a pino”, a artista Isabela Seifarth propõe a celebração da vida experienciada em coletividade.
Cartografias de sol a sol
A mesa larga que se estende em conforto. Os corpos se aproximam em intimidade, espaço compartilhado, comunhão cotidiana e sagrada. Pães, frutas, pratos, copos e cerveja são o pretexto para o encontro. Ao centro, o sol antropomórfico observa a cena, vigilante, abençoando céu e mesa, natureza e gente. Aqui, o tempo desacelera, cadenciado, como no xote que guia nossa história. Uma ode à vida que saúda a existência.
A exposição Sol a pino, de Isabela Seifarth, na Paulo Darzé Galeria, propõe a celebração da vida experienciada em coletividade. A artista mostra ao público mapas do cotidiano, representando as festividades baianas e os elementos que nos lembram de quem somos e de onde viemos.
Isabela Seifarth, ao inserir em suas obras a cartografia, como em Nascimento de um mundo inventado (2025), mostra-nos que cada elemento em suas composições serve para abraçar e sustentar as narrativas que permeiam o povo do sertão em sua multiplicidade. Sob essa perspectiva, suas obras operam como leituras da história e da experiência coletiva, mapeando aquilo que há de mais potente no convívio humano. Festa e rito compartilham a mesma cena, sem hierarquias rígidas: trata-se de um espaço onde o encontro é princípio organizador e onde a convivência se constrói a partir da proximidade dos corpos, dos gestos e das celebrações.
O acúmulo e o excesso de figuras, recorrentes em suas pinturas, não devem ser compreendidos como simples exuberância visual, mas como uma recusa ao silêncio e ao vazio. Nessa densa catalogação de personagens, objetos e cenas, a artista apresenta um repertório múltiplo, no qual o Barroco Baiano dialoga com a culinária do Recôncavo, com a cerveja gelada partilhada ao longo de um extenso calendário festivo e com a música, que se faz presente tanto pela imagem central da sanfona quanto pela representação discreta, de João Gomes, inserida em meio à multidão em uma das obras.
A exposição propõe, assim, o sertão como um território vivo, no qual os mapas deixam de organizar o espaço segundo a lógica da precisão técnica e passam a se constituir a partir da imersão sensível da festa, do rito e do corpo coletivo. Essa compreensão aproxima-se das leituras críticas da cartografia que entendem a imagem como um dispositivo cultural e simbólico, capaz de produzir sentidos sobre o território para além de sua função representacional. Em diálogo com as cartografias medievais e renascentistas, frequentemente povoadas por seres quiméricos, sereias e serpentes, a artista inscreve a baianidade como um campo de coexistência entre o sagrado e o profano e entre o histórico e o mítico, evidenciando formas de conhecimento que escapam aos projetos de uma racionalidade moderna.
Ao longo da década de 1990, observamos[1] diferentes modos de leitura das imagens cartográficas, destacando o entendimento de que mapas não são representações neutras do espaço, mas construções culturais atravessadas por mensagens políticas. Essas mensagens se manifestam tanto nos discursos explícitos quanto nas distorções, ausências, convenções simbólicas e, de modo significativo, nas decorações, nas molduras que margeiam esses registros. Ainda nessa mesma análise[2], a cartografia aparece para retratar o espaço vivido, o bairro, a escola, a realidade, fazendo com que se percebam as mudanças e a permanência dos lugares, a distribuição dos objetos, reportando-se às memórias e à leitura de realidades por meio de representações.
As figuras quiméricas que emergem nas pinturas operam como elementos fabulares, como lembranças de um passado que permanece ativo no território, manifestando-se por meio de imagens, gestos e práticas culturais que atravessam o tempo. Nesse sentido, esses elementos funcionam como marcas de uma memória coletiva que se atualiza continuamente, revelando a permanência de estruturas simbólicas na vida social. Por exemplo, a figura do sol, que está presente em quase todas as obras, funcionava como referencial nos mapas para a navegação. O sol nessas terras é sempre bem-vindo, companheiro e testemunha das histórias que nascem. Outro elemento recorrente é a estrela nas cores verde e amarelo, demarcando o território com uma bandeira do Brasil.
Se Carybé elaborou uma síntese visual idealizada de uma ideia de povo da Bahia que se alastrou como a imagem predominante de baianidade, em Sol a pino, Isabela Seifarth desloca a síntese e a idealização, ao enfatizar a necessidade de observar os recortes culturais em sua pluralidade e colocá-los em relação. Suas obras evidenciam que o sincretismo religioso no Brasil não se restringe ao campo da espiritualidade, mas atravessa a cultura e os costumes, produzindo modos específicos de ocupação do espaço. O sincretismo[3] opera como um sistema dinâmico de coexistência simbólica, no qual diferentes matrizes culturais se articulam para sobreviverem no mesmo espaço. O acúmulo mostra-se como necessário, como parte da tradição. Esse convívio entre costumes e crenças rompe com a separação entre o público e o privado, fazendo das ruas a extensão da casa e do cotidiano um espaço permeado pelo rito. É nesse contexto que os altares surgem de forma recorrente nas obras, reunindo representações de santos católicos, orixás, querubins, obras que lembram Mestre Vitalino e ceramistas de Caruaru, retratos de entes queridos e objetos que também se inserem na liturgia sagrada como velas, ícones, bebidas alcoólicas e comida, configurando uma visualidade em que o sagrado se manifesta na experiência ordinária e compartilhada do território.
Nesse contexto, o Barroco se insere nas obras não apenas como estilo, mas como vivência histórica associada aos primeiros séculos da colonização, marcada por processos de mescla, adaptação e reinvenção cultural. Aqui, ele continua presente na visualidade da cidade, sobreposto, ademais, por outras camadas culturais. O Barroco Baiano constitui-se justamente no acúmulo, nessa convivência entre opostos, que, em outros contextos, seriam tratados como antagônicos, mas que, aqui, são cultivados e preservados lado a lado. O duplo manifesta-se tanto na presença de Ibeji, nas festividades de Cosme e Damião, quanto nas esculturas dos anjos barrocos, os chamados “querubins”, tradicionalmente representados como jovens cupidos, resquícios míticos da fusão entre cristianismo e paganismo.
Se na arte contemporânea por vezes o excesso foi rejeitado em favor da economia formal, nas obras de Isabela Seifarth, o excesso se afirma como principal recurso visual. No entanto, esse aglomerado de figuras não se apresenta de maneira caótica: cada camada de personagens e objetos estabelece diálogos internos, ocupando um lugar preciso na composição. Trata-se de uma artista que planeja minuciosamente suas pinturas para que um senso de equilíbrio possa prevalecer no olhar do espectador. As obras funcionam, assim, como guias sensíveis para decifrar aquilo que há de mais humano em nós: o contato com o outro.
As obras dialogam com produções de artistas como Diego Rivera, Thiago Martins de Mello e Marcela Cantuária, seja pela paleta cromática, pela pintura em camadas ou pelo viés político, que ora se apresenta diluído na celebração, ora se impõe por meio do relato. O diálogo com o muralismo se estabelece pela escala monumental e pelo uso do espaço, a predominância de cores primárias e a frontalidade. As pinturas exigem do espectador uma participação ativa: para contemplá-las, é necessário tomar distância, percorrer a superfície quadrante por quadrante, buscar referências que remetam ao cotidiano, a uma vivência pessoal, a uma memória festiva do 2 de julho ou a um almoço de domingo ensolarado na casa da avó.
De todo modo são obras políticas; afinal, nada mais político que priorizar e demarcar a alegria, povoando o espaço com o múltiplo e o diverso, em defesa do afeto e da alegria necessária para sobreviver às adversidades. São grandes narrativas visuais, de ritmo próprio e caráter teatral, cenas que tensionam os limites da moldura barroca e mobilizam a memória coletiva. Ao organizar o mundo, essas imagens produzem imaginários e legitimam outras narrativas, funcionando como mapas em que território, corpo e memória se sobrepõem, sem que se estabeleça uma hierarquia estável entre eles.
Assim, Sol a pino, de Isabela Seifarth, vem em ritmo caminhado, andar manso, no corpo a corpo, batidas secas, passo leve, criando um balanço constante como a respiração, lembrando-nos que estamos em dança, em constante movimento. Seja na mesa, na rua ou no altar, suas obras acolhem o sagrado e privilegiam o gesto simples, evidenciando que a alegria é fundamento.
Mayã Fernandes
Curadora e historiadora da arte
Isabela Seifarth é artista visual e trabalha sobretudo criando narrativas transmitidas através da pintura e sua pesquisa permeia o universo das tradições da Bahia e do Recôncavo Baiano, incluindo seus acervos materiais e imateriais, aproximando os elementos da cultura popular e seus lugares.
Jovem artista, trilha uma arte de grande entrega ao proporcionar nas suas paisagens urbanas e rurais, uma leitura aberta às complexidades do processo criativo, da estética e de uma poética bem sua., subvertendo temas.
Isabela Seifarth, ao inserir em suas obras a cartografia, mostra-nos que cada elemento em suas composições serve para abraçar e sustentar as narrativas que permeiam o povo em sua multiplicidade. ‘Suas obras operam como leituras da história e da experiência coletiva, mapeando aquilo que há de mais potente no convívio humano. Festa e rito compartilham a mesma cena, sem hierarquias rígidas: trata-se de um espaço onde o encontro é princípio organizador e onde a convivência se constrói a partir da proximidade dos corpos, dos gestos e das celebrações’.
Formada em Arquitetura, finalizando o mestrado em Artes na Universidade Federal da Bahia (UFBA), chegou a trabalhar como arquiteta por dois anos, mas já pintando, incentivada pela família, esta artista de 35 anos, nascida e criada em Salvador, vivendo entre a capital e São Félix, cidade de sua família no Recôncavo.
Isabela integra o acervo do Mac Bahia, é representada pela Paulo Darzé Galeria, já tendo participado de mais de 40 exposições coletivas, com destaque para o Museu de Arte Moderna da Bahia, Museu Afro-brasileiro/UFBA, Casa do Benin e Solar Ferrão, projetos selecionados em editais, o que inclui o vídeo “Feira Livre”, premiado no SSA Mapping em 2018. Participou da residência Fluxos: acervos do Atlântico Sul, proposto pelo Intervalo – fórum de arte em 2019; do painel “Salvem as Matas, Salve à Cabocla!”, parte do Projeto Mural, em 2021; e, mais recentemente, a participação na 30ª Biennale de Dakar (DAKART), Senegeal, em 2022. No mesmo ano, com a obra “O nome da terra” passa a fazer parte da coleção do MAM/Bahia
1 –O que é a arte para você? Ou, melhor, a sua pintura? Vivência? Imaginação? Observação da vida e da cultura de uma Bahia no seu cotidiano? A vertente da pesquisa em arquivos para as séries que vem realizando? E indo além, como multiartista, não somente pintora, pode falar um pouco sobre esses caminhos que você realiza, além da bidimensionalidade?
A minha forma de fazer arte tem muito a ver com as vivências, pensando o passado, o presente e o futuro. Acredito que parte do desenvolvimento da nossa intelectualidade seja saber ler o mundo, observar as pessoas e as pequenas miudezas do cotidiano. A investigação de fotografias no Arquivo Público da cidade de São Félix foi fundamental para o processo, como uma forma de desarquivar o passado, uma espécie de investigação das memórias coletivas, reinterpretadas nos tempos atuais.
Penso que meu trabalho, embora seja feito por mim, por uma pessoa, uma unidade, passa a ser coletivo a partir da investigação dessas memórias e dessa observação do cotidiano. Passo a entender que não estou sozinha neste mundo e que as minhas memórias não são somente minhas: elas também são coletivas.
Eu gosto de expandir o meu trabalho para vários lugares, para além da obra de arte entendida como um quadro em si. Gosto de trabalhar com grandes murais, com vídeo mapping, dois tipos de trabalho que se relacionam diretamente com a cidade e as pessoas na rua: o primeiro, pensando numa ocupação dos vazios da cidade, que fica permanente por alguns anos, criando uma relação cotidiana com as pessoas. O segundo, o vídeo mapping, é pensar a cidade, mas acima de tudo a arquitetura, e como a arte e as cores vão se relacionar com ela, se aproximando do espectador. Isso dá vida às pinturas. Além também de gostar de trabalhar com várias outras vertentes, onde a arte puder alcançar, eu fico feliz.
2 –Na sua arte, histórias se articulam e signos e símbolos se evidenciam, composições se articulam. Há uma composição pré-formatada? Um planejamento? Ou segue o que a obra vai pedindo em seus momentos? De outra forma: você planeja minuciosamente suas pinturas? E a pergunta é insistente, pois nela há uma composição de equilíbrio. Sua arte é um lugar do sonho e da liberdade?
Sim, me entendo como arquiteta, cenógrafa, pesquisadora, pintora, historiadora, designer e muitas outras coisas. Para mim, fazer uma obra é muito mais do que apenas pintar: o pensamento vem em primeiro lugar. Na faculdade de arquitetura, aprendi a pensar o conceito dos projetos, a pesquisar e a planejar; acabo trazendo esses conhecimentos para o modo como penso a arte.
Cada quadro é uma empreitada, na qual parto de uma investigação sobre o que quero falar, lendo livros, assistindo a filmes e buscando referências imagéticas. Em seguida, passo para o projeto, no qual planejo minuciosamente cada imagem, cada cor, enfim, toda a composição da obra. Quando finalmente chego à etapa da execução, embora tudo tenha sido planejado, dou a mim mesma a liberdade de, no decorrer do processo, me desprender do projeto e avançar sem a necessidade de ser tão racional.
É nesse momento que reside a liberdade da expressão e do gesto. Acredito minha arte beira um pouco a realidade, e um pouco o mundo dos sonhos, onde cada leitor, vai conseguir se identificar com os elementos a partir do seu repertório de vida e criar uma nova leitura.
3 –Pensar na cor. Suas cores são múltiplas e vibrantes. Você afirma numa entrevista sobre uma estética herdada do barroco, centrada em não ter, a partir daí, preenchendo todo vazio, numa composição que usa toda uma gama de cores para que neste excesso formem uma unidade no olhar?
A cor é um elemento fundamental para o meu trabalho. Aprendi a pensar a cor observando o mundo à minha volta. Como nasci em um lugar tropical, em minhas pinturas aparecem cores vibrantes e múltiplas; talvez, se tivesse nascido em outro lugar, minha paleta cromática fosse diferente.
Se tentarmos imaginar a ideia de um barroco brasileiro na atualidade e lembrarmos de um dos princípios do movimento, o termo em latim horror vacui, que significa horror ao vazio, poderemos adentrar uma estética de acúmulos decorativos inseridos em equipamentos usuais do nosso cotidiano, como casas, padarias, bares e barbearias.
Ao visualizar a imagem desses lugares na linguagem da pintura, o que passa a importar não são mais os objetos da representação de forma isolada, mas o conjunto e a disposição deles dentro do ambiente. Surge, então, uma sensação de caos e, ao mesmo tempo, uma harmonia visual que pode ser organizada por meio da fragmentação das cores vivas que ocupam minhas telas.
Assim como os objetos, as cores não funcionam isoladamente. É necessário um preenchimento de frações espalhadas, de modo que conduzam o observador a perceber esse todo, tornando a experiência de adentrar um espaço do cotidiano popular tão rica quanto ter o olhar tomado pelos reflexos dourados ao entrar na Igreja de São Francisco, toda talhada em ouro, na cidade de Salvador. E é exatamente assim que enxergo o mundo que vivo e venho trazendo para as minhas pinturas.
4 –O Barroco sempre é citado ao falar de sua arte. Esta é um barroco que tem raízes no estilo de arte? Ou, por não vermos, pela falta do vazio, um excesso na sua visualidade de imagens? E nesta mostra qual o lugar que o barroco ocupa? Vai além de uma composição com superposição de camadas culturais?
Mais do que um estilo artístico, eu entendo o barroco como um movimento sociocultural. É nele que surge aquilo que costumo chamar de “homem barroco”, uma essência que atravessa o tempo. Para mim, o barroco não é algo preso a um período histórico específico, mas uma ideia que se multiplica ao longo da nossa história, desde o homem primitivo, com toda a sua força expressiva, até os dias atuais.
O barroco sempre me chamou atenção por ser uma arte mais expressiva em relação ao Renascimento. Ele rompe com a linearidade do traço e aposta no pictórico, na profundidade, em formas abertas que não precisam seguir fielmente a observação da realidade. Gosto muito da ideia de unidade presente no barroco, onde partes, manchas e cores formam um todo que pode ser compreendido; a tensão entre claro e escuro, entre obscuridade e luz, e os movimentos expressivos que atravessam as imagens. E, claro, o horror vacui, esse horror ao vazio, que é uma característica fundamental.
Ao cruzar essa ideia do ‘horror vacui’ sabiamente aprendida pela sabedoria popular brasileira, me questiono quem seria o autor da obra, se seriam os europeus colonizadores ao traçar um estilo artístico; ou se seria o povo miscigenado brasileiro que ocupou seus corpos nas ruas a partir de uma experimentação do sagrado ao profano e as aglomerações da estética do acúmulo dos lugares que habitam.
Assim, a riqueza da estética brasileira reside não em uma busca pela perfeição, mas na celebração do cotidiano, na mistura de influências e na criação de um espaço que não tem medo de ser preenchido. Isso nos leva a entender que a arte, em todas as suas formas, é uma forma de resistência e afirmação, um grito contra o vazio que tenta nos silenciar.
Também me questiono se seria, ora ou outra um fotógrafo que captura uma multidão, ou a artista que ficciona a espacialidade da ocupação de objetos em seus lugares e os corpos em cidades imaginárias que se aproximam de um Nordeste com acrílicas eram pintados com óleos e temperas.
Acredito que seja um conjunto, talvez todos sejamos um pouco dos autores do que está presente em nossa terra, e essa estética é como se fosse um desdobramento do barroco, um “rococó” vernacular brasileiro misturando o passado e o presente, sem precisar estar banhado a ouro para possuir essa riqueza estética.
Se tentarmos imaginar a ideia de um barroco brasileiro na atualidade e lembrarmos de um dos princípios do movimento, o termo em latim horror vacui, que significa horror ao vazio, poderemos adentrar uma estética de acúmulos decorativos inseridos em equipamentos usuais do nosso cotidiano, como casas, padarias, bares e barbearias.
Ao visualizar a imagem desses lugares na linguagem da pintura, o que passa a importar não são mais os objetos da representação de forma isolada, mas o conjunto e a disposição deles dentro do ambiente. Surge, então, uma sensação de caos e, ao mesmo tempo, uma harmonia visual que pode ser organizada por meio da fragmentação das cores vivas que ocupam minhas telas.
Assim como os objetos, as cores não funcionam isoladamente. É necessário um preenchimento de frações espalhadas, de modo que conduzam o observador a perceber esse todo, tornando a experiência de adentrar um espaço do cotidiano popular tão rica quanto ter o olhar tomado pelos reflexos dourados ao entrar na Igreja de São Francisco, toda talhada em ouro, na cidade de Salvador. E é exatamente assim que enxergo o mundo que vivo e venho trazendo para as minhas pinturas.
5 –Há uma preocupação em toda sua obra de que haja um entendimento direto do conceito da obra? E nesta uma conexão com as pessoas? Um direto entendimento do que veem? Sem subterfúgios, coloca a obra a disposição do espectador? Quer este diálogo?
Acredito que o fato de minha obra ser uma pintura figurativa já ajuda bastante o espectador a compreender alguns de seus pontos. Ainda assim, mesmo sendo figurativa, o entendimento de uma obra de arte nunca é direto nem fechado em um único sentido; ela sempre se completa a partir do repertório que cada observador traz consigo. Gosto de trabalhar com símbolos que orientem essa leitura e direcionem o olhar para o conceito que penso inicialmente para a obra.
6 –A continuidade e a singularidade. Em “N de Nordeste”, exposição individual, temos cenas do Recôncavo da Bahia, a partir de referências do Arquivo Público da cidade de São Félix e registros feitos por você mesma. Pinturas produzidas entre 2020 e 2022. A exposição ‘Feira Livre’ (2019), foi composta por pinturas, vídeos e instalações, a partir de imagens de trabalhadores informais da Bahia, do século XIX à contemporaneidade. Em paralelo à exposição em Salvador, apresentou “ABC do Nordeste”, no Mercado Municipal de São Félix. Esta temática que você trabalha foi ou é um projeto em progresso? Atualmente, na produção de instalações e pinturas em grandes dimensões, como os murais, todas discutem assuntos que representam sua arte, e já fazem de imediato uma identificação dela? Como uma sua digital? É o que chamei continuidade e singularidade. Um trabalho seu é logo reconhecível, daí como se sente ao ver este seu projeto estético e artístico, seus conceitos e a feitura, a produção de sua arte, tão identificável para quem a vê? Sempre foi um propósito seu?
Acredito que toda vez que estamos finalizando uma exposição, já estamos automaticamente preparando novos trabalhos para novas séries. O processo de imersão criativa e braçal, nos leva a um esgotamento físico, mas um florescimento mental, onde queremos extrapolar as ideias para novas obras. E acredito que isso aconteceu de 2021 para cá, após a exposição ‘N de Nordeste’.
O fato de ter a partir daí tido maior produção de murais em grandes dimensões, me fez reavaliar a forma de produção das telas menores também. Tudo é uma grande simbiose. A gente está sempre mudando, mas como se fossemos pontos de costura, antes de ir para frente, precisamos buscar o que tem lá atrás, e esse movimento é contínuo.
Acho que por ser uma artista autodidata foi mais fácil conseguir criar uma identidade própria. Desde criança nunca quis fazer aulas de pintura, por achar que aquelas aulas, tirariam uma parte importante do meu processo, pensar sozinha, criar e entender o meu traço como uma espécie de alquimia do gesto e das cores. Fico muito contente por conseguir isso de uma maneira “quase que sem querer”. Acho importante para o pintor, como gesto de identidade a coragem de fazer o que se pensa e também do que são se pensa, o que somente o corpo pode expressar.
7-Quais as suas grandes influências?
Embora nascida em Salvador, foi na cidade de São Félix, que tive as primeiras experiências de experimentar a cidade como cidadã, de explorar o mundo das artes, visitando a Bienal do Recôncavo, tendo a liberdade de ter as primeiras leituras sozinha do mundo. O Recôncavo pulsa arte das mais diversas linguagens, e artistas como Ana Fraga, Pirulito e Valdinei Suzart me acolheram no início da trajetória artística. Para além do Recôncavo, devo dizer que as pessoas do cotidiano me influenciam muito. Mas artistas como Carybé, Diego Rivera, foram muito importantes para o desenvolvimento do trabalho que faço hoje.
8 –A exposição Sol a pino, na Paulo Darzé Galeria. No texto do catálogo é dito que “temos o cotidiano, a coletividade. E através da cultura e dos costumes chega-se ao sincretismo religioso ocupando um espaço na sua obra”. Qual o lugar da religião ou da religiosidade na sua obra? Anteriormente e agora nesta mostra?
O lugar da religião na minha obra é muito parecido com a forma como ela aparece na minha vida. Não tenho uma religião definida, mas o fato de ser baiana faz com que eu esteja constantemente atravessada por questões religiosas no cotidiano, seja ao vestir branco em uma sexta-feira, seja ao cantar “Derrama, Senhor” em festas de aniversário. Além disso, o calendário de celebrações em que o sincretismo se faz presente e se mistura com o profano é enorme. Como meu trabalho lida diretamente com o cotidiano, os símbolos religiosos não poderiam ficar de fora.
Para além dessas referências diárias, as figuras de anjos são recorrentes em minhas obras. Quando comecei a compreender meu trabalho como um desdobramento do barroco — um barroco vernacular, multiplicado pela forma de viver das pessoas daqui — senti a necessidade de buscar figuras que simbolizassem diretamente esse barroco, que na Bahia se manifesta fortemente na arquitetura e em suas talhas. É daí que surgem esses anjos, vindos das talhas das arquiteturas barrocas, como se estivéssemos sempre sendo observados por essas figuras angelicais.
Mas não me interessa apenas a referência às talhas. Também penso nos anjos a partir da investigação de mapas-múndi antigos, nos quais essas figuras apareciam ao lado de demônios. Os anjos sopravam nas bordas do mundo para proteger as embarcações dos perigos do limite, enquanto os demônios, representando o novo e o desconhecido, surgiam como ameaças a serem vencidas. Essa iconografia cria uma dualidade entre o bem e o mal que me interessa muito. Ao trazer essas figuras para cenas do cotidiano, proponho a ideia de que convivemos diariamente com elementos que escapam à linearidade e ao controle.
9 –A exposição Sol a pino, na Paulo Darzé Galeria, seguindo o texto do catálogo, propõe a celebração da vida experienciada em coletividade. “A artista mostra ao público mapas do cotidiano, representando as festividades baianas e os elementos que nos lembram de quem somos e de onde viemos”. Como identifica esta mostra dentro de sua trajetória? Quantos trabalhos nesta mostra? E técnicas?
Acredito que todo trabalho é sempre importante. No entanto, nesta mostra consigo reunir obras de uma série que conversam entre si e que venho pensando e desenvolvendo há bastante tempo. Esses trabalhos discutem diversas questões do cotidiano, que vão desde famílias reunidas à mesa, como em uma grande festa de Carnaval, até temas básicos da sociedade, como o direito à saúde, à educação e à alimentação, mesclando tudo isso com a nossa cultura local.
A mostra apresenta uma série de trabalhos em acrílica sobre tela, em médias e grandes dimensões, além de algumas pequenas guaches, nas quais o espectador pode se aproximar dos detalhes. A espacialidade da Paulo Darzé Galeria ajuda a explorar ainda mais as grandes dimensões, tendo como primeira obra vista ao entrar na galeria uma pintura com mais de cinco metros de altura.
10 –A exposição Sol a pino, na Paulo Darzé Galeria traz, conforme li, que atualmente você se concentra, na produção de instalações e pinturas em grandes dimensões, todas a discutir assuntos seguindo os agora apresentados, e segue os territórios encantados pelo desejo, vivência e imaginação como o Recôncavo Baiano, a Baía de Todos-os-Santos, e o sertão, ocupando toda sua temática na pintura? Esta cartografia da mostra evidencia práticas para a construção de novos mundos, possíveis e impossíveis, reais e ficcionais? Fabular mundos é o que desenvolve a sua pesquisa poética?
Acredito que toda arte seja uma espécie de cartografia onde o artista mostra um pouco do mundo que enxerga e do mundo que vê. E essa exposição não é diferente, circulando muito entre Salvador e o Recôncavo Baiano, e outros lugares da Bahia, além da circulação imaginária dos lugares que sonho; trago um pouco da representação de cada lugar, pensando na forma cotidiana, onde as pessoas consigam se identificar com os lugares, símbolos e pequenos ritos. Trago uma obra onde se tem um altar bar, em que cartografo esta experiência singular que é estar cercado por tantas bebidas e também por figuras santas, onde o sagrado não se tem limite diante da experiência da embriaguez. Faço a fabulação de novos mundos, a partir destes universos tão ricos, mas como disse anteriormente, quem vai finalizar toda essa fabulação é o expectador que vai emergir na obra junto às minhas e as suas memórias, tornando assim a obra coletiva