Abertura da exposição
A mostra “Era do Escambo” será inaugurada no dia de 16 de outubro, terça-feira , às 18h, e ficará disponível para visitação até o dia 22 de novembro , na Rua Dr. Chrysippo de Aguiar, 8, Corredor da Vitória.
Na exposição “Era do Escambo”, Daniel Jorge constrói lugares onde narrativas impostas perdem sua força, onde é possível recomeçar. Porque casa, para ele, é território móvel: pode ser barraco, pedra na beira do caminho, trincheira de resistência.
A prática de Daniel Jorge nasce no entrelaçamento entre corpo e mundo. Artista nascido em Minas Gerais, criado entre as vielas do Rio de Janeiro e radicado no arquipélago de Salvador, sua trajetória geográfica não é mera biografia – é método. Cada deslocamento inscreve no corpo uma cartografia de saberes: o gesto do avô sapateiro que amacia o couro, a peneira da avó que adoça enquanto filtra memórias, o tijolo do pai assentado sobre alicerces firmes, a mãe que carrega a cidade nos ombros. Desses gestos herdados, Jorge extrai uma pergunta que atravessa toda sua obra: como se pesa o que não tem medida?
Seu vocabulário material é político porque carrega as mãos que o trabalharam. Conversando com Daniel no ateliê, me veio à cabeça um poema clássico de Bertolt Brecht, Perguntas de um Trabalhador que Lê1: “Quem construiu Tebas de sete portas? / Constam nos livros os nomes dos reis; / terão os reis arrastado os blocos de pedra?”. Pedra-sabão, ferro oxidado, madeira carbonizada, couro, piche – cada matéria traz inscrita a história de quem a extraiu, moldou, queimou, curtiu.
São materiais de trabalho, não de ornamento. Matérias que guardam o suor de pedreiros, carvoeiros, sapateiros, ferreiros – os mesmos ofícios da família de Jorge, os mesmos corpos invisibilizados pela história oficial. “A cada página um grande feito. / Quem cozinhava o banquete?”, pergunta Brecht. A cada escultura de Daniel Jorge, a mesma pergunta ecoa: quem arrastou a pedra, quem cortou a madeira, quem curtiu o couro?
Escultura, instalação, performance e desenho não se apresentam como categorias estanques, mas como desdobramentos de um mesmo procedimento: o escambo. Jorge negocia com ausências, mede o que escapa às balanças convencionais, desloca estruturas fixas e assenta o que insiste em movimento. Seu corpo opera como instrumento de navegação, suas mãos pesam o mundo em outra escala.
Uma vez, em seu ateliê em Salvador, Daniel me disse que foi esta cidade quem lhe ensinou a boiar. Boiar não é nadar – é entregar o peso à correnteza, deixar que o corpo encontre seu equilíbrio precário entre afundar e flutuar.
No Atlântico que banha a Bahia, boiar carrega memória: dos corpos jogados ao mar durante a travessia forçada, dos que se recusaram à captura e escolheram as águas. Salvador ensinou Daniel a boiar porque aqui o chão é instável, porque aqui a história se move em marés.
Esta individual na Paulo Darzé Galeria emerge dessa aprendizagem. Em obras como Pedra em Travessia, blocos de pedra- -sabão escarificada equilibram-se sobre ferro oxidado – a pedra mineira atravessando o metal que um dia foi corrente, que um dia foi grade. Geologia Baiana e Geologia Mineira inscrevem nas superfícies uma cartografia íntima: as duas terras que formam o artista gravadas como códigos de origem. Magia dos Mercados entrelaça troncos de madeira com correntes naúticas e ferramentas laborais – o mercado ancestral africano convocado através de seus instrumentos de trabalho, não de seus produtos.
Entre as obras, O Go(l)pe da Cachaça opera em registro ambíguo. Uma escada esculpida em madeira de jaqueira verte de uma quina na parede, enquanto no chão copos cheios de cachaça medicinal – preparadas por Dona Regina, da feira de São Joaquim – aguardam os visitantes. Daniel mantém com Dona Regina uma relação que ultrapassa a transação comercial: é troca de saberes, escuta, reconhecimento de uma tradição milenar de cura que resiste nas mãos de mulheres racializadas. Silvia Federici, em Calibã e a Bruxa2, demonstra como a caça às bruxas nos séculos XVI e XVII foi fundamental para a consolidação do capitalismo: era preciso destruir os saberes medicinais de mulheres – especialmente das classes populares – que representavam autonomia sobre o corpo e a vida, ameaçando o controle necessário à acumulação primitiva e à formação da força de trabalho disciplinada. Dona Regina, como tantas outras mulheres que guardam segredos de ervas e raízes nos mercados populares, é herdeira dessa resistência que sobreviveu à perseguição.
Este novo corpo de trabalho, apresentado em parte nesta exposição, é informado pelo poema Um Simples Escambista, do próprio Daniel Jorge, onde tensiona a história do escambo colonial. O que era sistema relacional baseado em códigos simbólicos e espirituais – onde se trocava vida por vida, canto por colheita, tecido por bênção – foi violentamente transformado em cifra. Os búzios, símbolo de prosperidade e comunicação com o sagrado, tornaram-se moedas que contabilizavam corpos. Em Lose Your Mother, Saidiya Hartman3 documenta a conversão obscena: meio quilo de búzios equivalia a cerca de seis quilos de carne humana. A equação do horror: pesar a vida como se pesa mercadoria. Obras como Don’t Toque e Pérola Negra Pino evocam essa violência inscrita na superfície: cada marca na pedra é memória de corte, de troca forçada, de valor extraído. Jorge trabalha na opacidade dessa ferida – suas obras não traduzem a dor em espetáculo, mas criam presenças que não se entregam por completo ao olhar, que exigem uma disposição para tatear o que resiste à transparência.
Jorge constrói lugares onde narrativas impostas perdem sua força, onde é possível recomeçar. Porque casa, para ele, é território móvel: pode ser barraco, pedra na beira do caminho, trincheira de resistência. Como nos ensina Denetem Touam Bona, pensador que desenvolveu o conceito de “cosmologia das fugas”4 a partir da história dos quilombos, fugir não é apenas partir, mas inventar novos territórios de existência. Os quilombos não foram só esconderijos – foram invenções geográficas, cartografias da recusa, lugares onde se criava outra forma de vida. Nesta exposição, Daniel Jorge abre a mala que o avô Sebastião lhe deu e espalha seu conteúdo entre o dentro e o fora, recusando a clausura como quem recusa a captura. É boiar reconhecendo que do fundo do abismo nasceu um povo novo, uma poética nova. Daniel Jorge fabrica outros instrumentos de navegação: balança feita de pedra e couro, mapas desenhados em línguas inventadas, estandartes que tremulam. Ferramentas de fuga e fundação, para quem segue aprendendo a habitar o mundo de viés.
Fernanda Brenner