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Yuri Ferraz

Opening
30 de January de 2026

Schedule
19h

Exhibition
29 de January a 28 de February

Sorry, this entry is only available in Brazilian Portuguese.

A ARTE TRANSMITOLÓGICA DE YURI FERRAZ

 

A justaposição de módulos a partir de uma célula conceitual já se encontra nas operações da própria Natureza. A colméia das abelhas, os flocos de neve e os demais cristais, as escamas dos peixes e répteis em evolução e os segmentos articulados dos insetos propagam e estendem este mesmo princípio: A criação de séries através de um desenvolvimento temático, como uma música dodecafônica de Shoenberg, Webern e Alban Berg. A arte de Yuri Ferraz é assim: Uma sucessão de metâmeros de complexidade variável, caminhando com segurança técnica e destreza manual sobre o matérico da forma. Yuri Ferraz plasma os seus ideais partindo dos embriões da Ciência e da Tecnologia, em paralelo íntimo com o cerne da Natureza. É em síntese, excelente arte para ser vista, lida e pensada.

Ao completar um quarto de século de produção ininterrupta, o artista se encontra em meio de uma intersecção de universos mitológicos distintos, amalgamados a partir de uma vontade criadora que se apropria dos arquétipos do inconsciente coletivo da humanidade. O resultado é uma explosão de cor e de imagens múltiplas, as quais obedecem a uma narrativa completa e original, que ao invés de se expressar em palavras recorre a ícones visuais universais para este intento.

O artista espelha a fauna, a flora e a antropologia, física e cultural, incluindo até mesmo a mitologia contemporânea das HQs, fundamento conceitual do seu magnífico trabalho, de grande impacto visual.

 

 Ricardo Chequer Chemas

Outono de 2025.                 

Yuri Ferraz é artista visual, nasceu e vive e trabalha em Salvador/Ba, em 1972. Cursou Letras Vernáculas na Universidade Católica do Salvador (UCSal) no período de 1993 a 1996, passando a dedicar-se, logo após, às Artes Visuais. Entre 1998 e 2001 foi aluno das Oficinas do Museu de Arte Moderna da Bahia (MAM-BA). Com influência da PopArt norte americana no que diz respeito à estética, da Arte Conceitual onde a ideia vem antes do objeto, e do Surrealismo pelo interesse em mitos, sonhos e o inconsciente. Interessado em Mitologia Comparada investiga pensadores como Mircea Eliade, Joseph Campbell e Carl Gustav Jung. A partir de aproximações, por características em comum, de mitologias de épocas e locais diferentes, vai construindo um novo e complexo sistema mitológico. Valendo-se de símbolos e signos do inconsciente coletivo da humanidade. Borrando fronteiras e contaminando territórios vizinhos. Moldando, assim, uma nova mitologia global que represente a humanidade. Com pintura acrílica em papel de alta gramatura, e o recurso das colagens de figuras menores vai compondo uma série de trabalhos com tamanhos variados entre 30 x 21 cm até 200 x 80 cm. Realiza uma produção ininterrupta nos últimos 25 anos. Durante a pandemia, desenvolve a série: “Uma fronteira entre a pintura e o objeto”, que é a transição entre o bidimensional e o tridimensional. Recebeu os prêmios: 2010 – 12º Salão Nacional de Arte de Itajaí/SC; 2002 – “Prêmio Braskem de Cultura e Arte” Salvador/BA; 2000 – “Menção Honrosa”, V Bienal do Recôncavo” São Félix/BA. E sua obra está em acervos -Arte e Música do Brasil e da África (AMBA), Veneza, Itália; Casa da Cultura Dide Brandão/SC; Galeria da Associação Cultural Brasil Estados-Unidos (ACBEU), Salvador/BA; Galeria da Aliança Francesa, Salvador/BA; Coleção de Jurgen Zimmer, Miami/FL – EEUU.

 

1 –Há em seus trabalhos uma declarada influência da PopArt norte americana, da Arte Conceitual e do Surrealismo. O que o leva a ter este interesse direto nestes momentos, e através deles da mitologia?

Andy Warhol com a PopArt, ao transformar a obra de arte em objeto de consumo “amplia” a circulação desta na sociedade. Com a ‘Fábrica’ ele bagunça os cânones da arte, a idealização do que é uma obra de arte, e a liberta. Roy Lichtenstein borra as fronteiras entre arte popular e erudita, ao expor pinturas de HQ’s em grandes galerias e museus. A arte conceitual provoca ao propor uma arte além da retiniana, para ser fruída também pela mente, e a obra de arte também ganha amplitude quando outras possibilidades de fruição são estimuladas. Antes, no surrealismo, René Magritte e demais surrealistas não se contentam com o uso da razão, do objetivo, do observável… e ultrapassam a fronteira entre o consciente e o inconsciente, mergulhando e se deixando contaminar pelo material onírico, mais uma vez ‘ampliando’ esse espaço simbólico de exploração.  Como é possível perceber, “ampliar” é a palavra-chave aqui! Penso em uma mitologia ampliada! Sem fronteiras! Amalgamando-a e universalizando-a.  Joseph Campbell, dizia que a mitologia que valeria a pena tratar num futuro imediato, era a do planeta. Os meios de comunicação e de transporte estreitaram o espaço geográfico. Os mitos se espalharam, influenciaram e foram influenciados pelas culturas que se relacionavam. Depois que a humanidade alcançou o espaço e olhou de fora para nosso pálido ponto azul (a Terra – Carl Sagan), a humanidade, entendo eu, se tornou uma só! Os mitos, os sonhos, os contos maravilhosos passaram a pertencer a todos. Ganha-se uma nova perspectiva e um novo elemento para pensar a mitologia.

 

2 –Esta sua mitologia em seus símbolos e signos compõem um sistema que percorrem o reconhecível e o imaginado. O que propõe com isto, na sua arte, é uma representação da humanidade? Ou deuses e heróis, percorrendo o atemporal? E disto, esta representação não pertence a uma cultura ou tradição específica, mas de sua justaposição?

O que venho produzindo não é uma colagem cultural, é algo como uma arqueologia do inconsciente coletivo, um mapeamento do que há em comum entre as mitologias. Vou identificando os pontos semelhantes e recontando nas telas os mitos de épocas e locais diferentes. Como existem símbolos semelhantes em culturas que nunca se encontraram fisicamente (paralelismo), reconheço que o homo sapiens preserva a mesma estrutura psíquica de milhares de anos atrás. O que proponho é uma representação da memória arcaica da humanidade, e certamente uma nova possibilidade de leitura cosmogônica. Veja bem, é um atravessamento dos tempos! Um atravessamento das mitologias, também! Deuses e heróis são personagens que percorrem o nosso imaginário desde o início da nossa jornada na superfície do globo. E são, portanto, atemporais! Mudam de nome e roupagem, mas mantêm características similares. Quando refletimos sobre os deuses e os heróis como forças da natureza, encontramos certas semelhanças. Por exemplo: Zeus é o deus dos raios e dos trovões na mitologia grega, Thor na mitologia nórdica, Xangô na mitologia iorubana, Marduk na mitologia da Babilônia, e o curioso é que estes personagens carregam cada um seu machado ou martelo de duas faces como ferramenta. Este é um tipo de semelhança que me interessa na pesquisa. São as evidências de que temos similaridades na nossa estrutura psíquica.

 

3 –Esta sua mitologia, por mostrarem diversos tempos, há uma fusão de ritos da história religiosa e a dos quadrinhos. Vê nestas imagens caminhos da contemporaneidade, o mundo contemporâneo? De que maneira esta junção explica p que pode ser denominado como nossa atual mitologia? 

Existe um fato conhecido pelos evolucionistas, de que nosso sistema nervoso central não sofreu modificação significativa nos últimos 50 mil anos. Doze mil anos, quando pintamos as cavernas de Lascaux e Altamira, foi ontem! A evolução se dá em milhões de anos, numa escala mais ampliada de tempo. Nos últimos 10 mil anos, quando passamos de caçadores-coletores para alcançar a lua, esse período estreito de tempo, foi quando criamos as nossas mitologias e religiões. Símbolos, como “axis mundi” e “a serpente”, são dois elementos presentes em todas as mitologias. O Axis Mundi (eixo do mundo) que conecta o céu e a terra, pode ser: uma árvore, uma montanha, um totem, uma cruz, uma catedral, uma pirâmide, um zigurate… a função é a mesma! Ligar, conectar! Já a serpente, pode ser: criação, proteção, energia vital, sustentação, em alguns casos ameaça, já que a serpente é da mesma família dos dragões! Percebe que estes dois elementos chaves conectam e preservam o que é arcaico na contemporaneidade? Todas as práticas religiosas hoje e sempre, buscam e buscaram uma conexão com o sagrado de alguma forma. O axis mundi é atemporal! Mas pertence também a todos os tempos, todas as eras. A serpente também! Entendo que estes dois símbolos, por exemplo, fazem parte de nosso arcabouço mítico arquetípico e perdurará por bastante tempo. A busca por conexão e sustentação são inerentes ao ser humano.

 

4 –Esta sua arte traz corpos híbridos transformados em seres animados, figuras, uma história em quadrinhos, e na justaposição destas suas origens acarretarem a estas imagens a visualização de um caráter abstrato, mesmo tratando-se de figuras? 

Num primeiro momento o foco estava nos personagens formados por deuses e heróis. Agora a intenção é que a atenção alcance um campo mais ampliado, as histórias. E como estas histórias reverberam. Os personagens de base são os cinco arquétipos universais propostos por Carl Gustav Jung: O Herói, a Grande Mãe, o Animal Auxiliar, o Trickster e o Velho Sábio. De certa forma há um teor de abstração, sim! Em certos momentos o personagem principal é o herói arquetípico, o herói de todos os tempos, independentemente de sua roupagem, o importante é o feito maravilhoso que ele realizou. As pinturas com cores intensas e figuras reconhecíveis do repertório geral, tem sintonia com a expressão usada por Jeff Koons: “Tratar de coisas pelas quais todas as pessoas possam criar um vínculo”. Mas além disso, o caráter conceitual permite ao fruidor fazer suas próprias leituras. Quando criei a pintura ‘o Mito de Hainuwele’, a primeira da série – Uma fronteira entre a pintura e o objeto – já sabia que a leitura seria muito particular para cada fruidor, mas que era possível se conectar com a obra por conter elementos reconhecíveis do repertório comum.

 

5 – No catálogo lemos: “ao completar um quarto de século de produção ininterrupta, o artista se encontra em meio de uma intersecção de universos mitológicos distintos, amalgamados a partir de uma vontade criadora que se apropria dos arquétipos do inconsciente coletivo da humanidade. O resultado é uma explosão de cor e de imagens múltiplas, as quais obedecem a uma narrativa completa e original, que ao invés de se expressar em palavras recorre a ícones visuais universais para este intento”. Como sente ter criado trabalhos de grande impacto visual pela justaposição de módulos a partir de uma célula conceitual?

Penso que parte do forte impacto que a obra causa acontece primeiro pela explosão de cores! Depois as imagens em si e suas relações com as demais figuras. O estudo das cores me interessa, como compor com as cores complementares, por exemplo! (Israel Pedrosa). A célula conceitual é o Norte! Tudo parte de uma ideia! Que vai encontrando seu próprio caminho. Começo a tela com tudo planejado anteriormente, baseado na pesquisa, porém no percurso permito-me fluir à medida que as intuições se apresentam. Quanto menos rígido consigo ser em relação à ideia inicial, mais satisfeito fico com o resultado final. Porém tem um ponto de tensão importante. Não dá para soltar as rédeas, senão o cavalo selvagem te leva para onde você não quer.

 

6 –Quais as técnicas utilizadas para esta mostra? Quantos trabalhos?

Na exposição terão pinturas em acrílica sobre tela, acrílica sobre papel + colagem, além de hibridismo entre pintura e objeto com papel de diversas gramaturas. Serão em torno de 17 peças o conjunto escolhido para esta mostra.

 

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