As duas séries aqui expostas, embora de gêneros da pintura diferentes, partem do mesmo exercício, ao qual Lucena se compromete, em seu trabalho de criação imagético, prospectar memórias, suas e alheias, ouvir histórias, rever imagens, acionar lembranças pessoais e adentrar a intimidade de desconhecidos.
A partir do seu arquivo pessoal, físico e imaterial, garimpos fotográficos e documentais, Maria Fernanda recorre inicialmente à colagem, procedimento creditado com frequência somente ao movimento e a artistas surrealistas europeus do início do século XX, embora Mary Delany (1700-1788), artista inglesa e uma das pioneiras da técnica, já a executasse com excelência dois séculos antes, para criar retratos e paisagens imprecisas.
Em “Boneca de papel”, série executada em dois diferentes formatos, apresentada nas paredes e entre os vazios dos seus suportes, os retratados emergem dos fundos ora monocromáticos, ora em tons vibrantes. Os rostos em formato 3×4 emprestam personalidade para corpos que ostentam, com uma ampla paleta de cores, trajes, sapatos, acessórios ricos em detalhes e, em alguns momentos, nos evocam certa familiaridade.
As figuras cheias de vigor incorporam a beleza e o glamour que guardam as páginas das revistas fashion, uma maneira que a artista encontra de rememorar a estreita ligação com a moda, de onde vem parte da sua formação. Embora feitos de imagens fragmentadas e de uma pintura que entrega e destaca as fissuras, são corpos altivos que se afirmam inteiros.
No segundo conjunto de trabalhos nomeados por Maria de “Intermédios” – o que liga um ponto a outro, o que é autobiográfico e o que toma emprestado –, encontramos recortes dos seus locais afetivos e ordinários e símbolos públicos, cartões-postais, como o elevador Lacerda. Há também um cuidado em saudar a cidade que agora a recebe. Feitas de pinceladas curtas e cores que se repetem, as paisagens de grandes dimensões funcionam como um refúgio para os seus habitantes, que miram sempre o horizonte.
A cineasta Agnès Varda, no documentário “Les plages d’Agnès”, de 2008, declara: “Se abríssemos as pessoas, encontraríamos paisagens”. Lucena consegue encontrá-las sobrepondo tempo, espaço e movimentos, criando situações nas quais é possível conciliar passado e presente.
Nos versos da poeta mineira Adélia Prado – “a memória é contrária ao tempo; quanto mais vivemos, mais eternidades criamos dentro da gente” –, as obras de Maria insistem em retornar ao que lhe é caro, como as boas recordações.
Bruna Araújo
As Boas Recordações, seguindo o título, é uma mostra que revisita e amplia séries anteriores como a inserção de obras de “Boneca de Papel”. Duas séries são aqui Quais as diferenças e semelhanças em sua continuidade nos trazem estas séries e estas pinturas?
As duas séries nasceram do mesmo processo de pesquisa: o garimpo de fotografias, slides e objetos encontrados em feiras de antiguidades, onde busco trazer para a minha pintura uma reflexão sobre a imagem e seus possíveis mecanismos de lembrança. É desse mesmo ponto de partida que elas se aproximam.
O que as diferencia é o caminho que cada uma percorre a partir desse material. No caso específico da série Boneca de Papel, a ideia surgiu quando encontrei, no Mercado da Praça XV, no Centro do Rio de Janeiro, uma edição antiga com bonequinhas de papel, iguais as que eu brincava na infância. A princípio, pretendia utilizá-la como um objeto dentro de uma série de relicários que produzia na época. Percebi, porém, que, em vez de utilizá-lo como objeto de lembrança fazendo parte de alguma caixa ou pintura, ela poderia dar origem a uma série inteira. Foi também uma oportunidade de reencontrar a minha formação em Design de Moda e os anos em que trabalhei com figurino.
Já na série Intermédios, utilizo como referência imagens encontradas em slides antigos. Apontando, mais em direção as paisagens e para os encontros entre diferentes tempos e lugares.
Também existe uma diferença nos procedimentos da pintura. Em Boneca de Papel, a pincelada é mais direta, com menos camadas de tinta. Em Intermédios, o volume de tinta é maior e a construção da imagem acontece por meio de sucessivas camadas tornando o processo pictórico mais lento e volumoso.
Seu trabalho de criação imagético, prospecta memórias, suas e alheias, o ouvir histórias, rever imagens de conhecidos, artistas, e desconhecidos, nas pessoas anônimas. Trazem elas lembranças pessoais? Ou apenas a imaginação destas lembranças e destas memórias?
Todas essas imagens que coleciono para utilizar como referência nas pinturas de alguma maneira acionam uma memória afetiva. uma lembrança ou sensação que tenha relação com a minha própria vida.
Na série Boneca de Papel, essa relação é mais direta. Os corpos e as roupas são construídos a partir das minhas referências de moda, da música, do cinema e de artistas que fizeram parte da minha formação. Já os rostos são, em sua maioria, fotografias 3×4 de pessoas completamente desconhecidas. Eu não conheço essas pessoas, mas, de alguma forma, estes rostos me são familiares. Talvez porque se pareçam com alguém que conheci ou porque despertem uma lembrança difícil de identificar. Essa escolha é intuitiva, mas nunca aleatória.
Em Intermédios, acontece algo semelhante. As paisagens encontradas nos slides antigos também pertencem, na maioria das vezes, a pessoas desconhecidas. Muitas vezes eu sequer sei onde aquelas fotografias foram feitas. Ainda assim, elas me remetem a paisagens brasileiras, principalmente praias e lugares que fazem parte da minha memória afetiva. É como se eu reconhecesse essas imagens, mesmo sem conhecer sua origem.
Nasci em 1968 e, por isso, grande parte do material que escolho dialoga com os anos 1970 em diante, período em que começam as minhas próprias lembranças. Mesmo quando trabalho com imagens de outras pessoas, existe um recorte de tempo que atravessa a minha experiência. É nesse encontro entre memórias pessoais e memórias anônimas que o trabalho acontece.
Estes trabalhos, ao mostrarem práticas de obras anteriores, como o recorte e a colagem, que é, podemos dizer, do universo da moda, uma de suas formações. Qual o alcance, objetivo inicial e final, que cria este construir desconstruindo imagens? E isso em diferentes formatos e suportes? E uma variada paleta de cores para que nos ofereçam uma certa intimidade com a imagem ali diante? É esta sua intenção? Ou seu objetivo ao criar estas pinturas?
Acho que essa forma de construir imagens por meio da justaposição de elementos diferentes vem, em parte, da minha formação. Na moda, utilizamos diferentes tecidos, cores, referências e épocas para criar uma nova imagem, seja no desenvolvimento de uma coleção de roupas, seja na construção de um personagem para uma dramaturgia. Percebo hoje que esse modo de pensar continua presente no meu trabalho. Quando passei a me dedicar exclusivamente às artes visuais, senti vontade de buscar diferentes suportes para a pintura. Comecei a procurar objetos que também pudessem fazer parte da obra, acrescentando novas camadas de significado.
Ao longo desse processo, fui percebendo que minhas escolhas sempre tinham alguma relação com as minhas vivências ou despertavam algum tipo de memória, mesmo quando não pertenciam diretamente à minha história.
Foi assim que surgiram, por exemplo, as fotografias antigas, os slides e outros suportes que passaram a integrar o trabalho.
Em relação à cartela de cores, procuro aproximar tonalidades que remetem às fotografias e aos slides coloridos das décadas de 70 e início de 80 de cores mais vibrantes e fluorescentes, presentes nos processos contemporâneos de impressão e circulação de imagens.
Meu interesse é compreender como as nossas referências, memórias e histórias influenciam a maneira como percebemos e habitamos o mundo. Procuro criar imagens construídas por encontros, deslocamentos e sobreposições, nas quais tempos, pessoas e experiências distintas coexistem.
Por fim, desejo que o espectador encontre algum ponto de interseção entre as suas próprias referências e as minhas, criando, a partir desse encontro, novas possibilidades de leitura.
É dito que na elaboração de seus trabalhos, você garimpa fotografias 3×4 e, partindo delas, de um arquivo pessoal, elabora imagens sobrepondo-se a estes rostos. Como identificou esta prática como sendo uma digital sua no mundo adas artes? Ou é um modo seu de conciliar passado e presente?
O que me intriga nas fotografias 3×4 é justamente o fato de elas serem imagens produzidas para um documento. São fotografias em que as pessoas procuram apagar qualquer traço de expressão ou de personalidade. Existe uma busca pela neutralidade: o olhar, a postura, a iluminação, tudo parece conduzir a uma imagem quase impessoal, apenas um número de identidade. É exatamente essa neutralidade que me interessa.
Assim como na brincadeira da boneca de papel da minha infância, recorto diferentes corpos, experimento combinações e vou aproximando essas fotografias 3×4 de inúmeras possibilidades. Fico montando e desmontando essas pequenas colagens até encontrar uma figura que faça sentido para mim. Só então ela se transforma em pintura.
O mais interessante é perceber como a presença do corpo altera completamente a leitura daquele rosto. É como se uma fotografia originalmente neutra, feita para um documento, passasse a adquirir uma personalidade. O mesmo olhar parece ganhar outra intensidade dependendo do corpo, da postura, das roupas, das cores e do movimento que o acompanha. A imagem deixa de representar apenas uma identificação burocrática e passa a sugerir uma história.
Também existe um encontro entre tempos diferentes. As fotografias 3×4 que utilizo pertencem, em sua maioria, às décadas de 1960, 1970 e 1980. Já os corpos podem vir de qualquer período, dos anos 1960 até os dias de hoje. Gosto de construir personagens que reúnam diferentes décadas em uma única figura, aproximando referências temporais distintas para criar uma imagem que não pertence a um tempo específico, mas a um terceiro lugar, onde passado e presente convivem.
Mais do que reutilizar fotografias antigas, interessa-me observar como uma imagem muda completamente de significado quando passa a conviver com outra. É nesse deslocamento, entre a neutralidade do documento e a expressividade do corpo, entre diferentes épocas, que o trabalho acontece.
As pinturas são de tinta a óleo sobre papelão/organza/tela/ linho, sustentadas por molduras que também compõem os trabalhos, e imagens que nos faz perceber, em escala humana, os trabalhos. Assim, a moldura, que seria um ornamento de madeira, se transforma em parte integrante dos trabalhos, utilizado para impulsionar a construção de uma narrativa, alguns casos com verso reverso das pinturas. Esse extrapolar da imagem para fora do campo, mais as que são sobrepostas, se inserem na obra a indicar uma representação? Uma identidade? Um jogo de personagens e de cenas?
As molduras entraram no meu trabalho seguindo a mesma lógica dos objetos garimpados. Elas funcionam como elementos adicionados à obra para trazer uma nova camada de informação. Não têm a função de limitar a pintura nem de servir apenas como um adorno. Pelo contrário, evocam uma prática da história da arte e funcionam como objetos de memória.
Por isso, a pintura não precisa caber dentro do espaço sugerido pela moldura. Ela avança até onde pretende ir.
Com relação ao uso do verso do suporte, isso surgiu da oportunidade de expandir o trabalho pelo espaço, tornando-o tridimensional. Eu desejava criar um espaço labiríntico, onde o espectador pudesse se misturar aos meus personagens e construir novos enquadramentos a partir das frentes, dos versos e das molduras vazadas.
Ao misturar estas imagens, uma época vai sendo apagada por campos inteiros de cor e os retratados emergem de fundos ora monocromáticos, ora em tons vibrantes. É a cor um fator indissociável para a criação de um passado que se insere no presente? O que o leva a escolher as cores de sua pintura? E quais os signos e símbolos que elas carregam?
Já falei um pouco sobre as cores que utilizo nas minhas pinturas na resposta três, mas elas realmente têm um papel fundamental no meu trabalho. Não procuro reproduzir exatamente as cores de uma determinada época. O que me interessa é trabalhar com as cores da lembrança que temos desse período.
No meu caso, essa memória está muito ligada aos álbuns de fotografia da minha infância. As tonalidades produzidas pelos processos fotográficos das décadas de 1960 até o início dos anos 1980 acabaram criando um imaginário visual muito característico. Mais do que representar fielmente uma época, essas cores passaram a representar a maneira como nos lembramos dela. Imagino que muitas pessoas reconheçam imediatamente essa atmosfera cromática.
Ao mesmo tempo, gosto de aproximar essas tonalidades de cores mais vibrantes, fluorescentes e presentes nas imagens contemporâneas, especialmente nas fotografias e nas imagens que circulam hoje pela internet. Essa mistura entre uma memória cromática do passado e uma paleta mais atual cria um terceiro lugar, um terceiro tempo, onde diferentes épocas convivem na mesma pintura.
Os campos de cor presentes na série Boneca de Papel também fazem parte dessa intenção. Não tenho o desejo de situar esses personagens em um tempo ou em um lugar específico. Pelo contrário, quero que eles permaneçam flutuando entre diferentes épocas. Por isso, opto por fundos formados por grandes campos de cor, em vez de cenários descritivos. Eles funcionam como espaços indefinidos, permitindo que essas figuras existam nesse território intermediário entre passado e presente.
Há um presente e uma memória presente, compondo cenas e seus personagens ficcionais., vindo do real. Há uma construção na sua pintura que advém de uma desconstrução, o justapor de um olhar para um Neste movimento estamos diante do tempo. O passado devolvido como presente. O que seus temas refletem o quanto sobre o tempo? O seu tempo?
Acho que meu trabalho não fala exatamente sobre o passado. Ele fala sobre a maneira como o presente reconstrói continuamente as nossas lembranças. A memória nunca é um lugar fixo. Cada vez que nos lembramos de alguma coisa, essa lembrança já foi atravessada pelo tempo e por tudo o que vivemos desde então. É por isso que me interessa misturar fotografias, personagens, épocas e referências diferentes. Não estou tentando reconstruir uma história verdadeira nem representar fielmente um determinado período. Estou interessada nesse espaço onde as imagens deixam de pertencer ao passado e passam a existir no presente, transformadas pelo olhar de hoje. Talvez seja por isso que existam tantos apagamentos nas minhas pinturas.
Eles não escondem a imagem; eles abrem espaço para que a imaginação complete aquilo que não está mais ali. A memória também funciona assim: ela preserva algumas coisas, esquece outras e inventa muitas delas sem que a gente perceba. Acho que, no fim, meu trabalho fala muito mais do presente do que do passado. Ele reflete o tempo em que vivemos, um tempo de excesso de imagens e de informações, no qual sinto vontade de desacelerar o olhar e criar imagens que convidem o espectador a construir suas próprias lembranças e narrativas.
Numa crítica da Bruna Araújo sobre seu trabalho, ela diz: “O processo criativo de Lucena é baseado em vestígios, das quais ela e a família fizeram parte, lembranças refrescadas pelos álbuns de fotografia, vídeos filmados pelos pais, e objetos cotidianos que porventura compunham esses cenários”. Mas há além dos personagens, das figuras, das paisagens, neste fazer um flerte com os desconhecidos, rostos e histórias. Estas se inserem no trabalho pela sobreposição de duas paisagens e a formação de uma única, um espaço que vem da adição e da subtração, dois em um, que só existe naquela obra. Exemplo: Ipanema e Porto da Estes são os vestígios que você traz para sua criação? Vestígios seria um olhar particular seu sobre o mundo que a cerca?
Sim, acredito que sejam vestígios, mas não apenas da minha própria história. São vestígios de tudo aquilo que, de alguma forma, atravessou a minha experiência e permaneceu na memória. Às vezes essa relação é direta, como acontece com fotografias da minha família ou com lugares que fizeram parte da minha vida.
Em outras situações, ela nasce de uma imagem encontrada numa feira de antiguidades, de um slide de uma família desconhecida ou de uma fotografia de uma praia onde nunca estive exatamente naquele momento registrado. Ainda assim, existe alguma coisa naquela imagem que de uma certa maneira passa a fazer parte da minha própria narrativa.
Nas pinturas em que sobreponho paisagens, como Ipanema e Porto da Barra, não estou tentando representar um lugar real. Estou construindo um terceiro lugar, que
existe apenas dentro da pintura. Nasci e vivo até hoje no Rio de Janeiro, uma cidade onde a praia sempre fez parte do meu cotidiano. Ao mesmo tempo, Salvador também ocupa um lugar muito afetivo no meu imaginário. As praias da cidade, a luz e a paisagem sempre me despertaram uma sensação de familiaridade e encantamento.
Quando uno essas duas cidades, não estou falando apenas de geografia. Estou aproximando tempos, experiências e lembranças para criar uma paisagem que pertence mais à memória do que à realidade. Ela é construída tanto pelo que permanece quanto pelo que desaparece.
Por isso gosto da palavra “vestígios”. Ela fala de algo que resiste ao tempo sem se apresentar de forma completa. Meu trabalho nasce justamente desse interesse pelos fragmentos, pelas lacunas e por aquilo que a memória recompõe.
Creio ser esta a sua primeira exposição na Bahia? Qual a expectativa?
Sim, esta é a minha primeira exposição em Salvador, e isso tem um significado muito especial para mim. A série Boneca de Papel já foi apresentada no Paço Imperial e na Casa França-Brasil (hoje Casa Brasil), no Rio de Janeiro, e uma das coisas que mais me marcou foi a forma como o público se envolveu com a exposição. As pessoas permaneciam bastante tempo diante das obras, procurando reconhecer referências, criando suas próprias histórias e estabelecendo relações muito pessoais com aqueles personagens. Essa troca me deu vontade de levar essa exposição para outros estados e conhecer novos olhares sobre o trabalho.
Fico muito feliz que esse primeiro passo aconteça justamente em Salvador, na Galeria Paulo Darzé, uma galeria de grande importância para a arte brasileira e que há tantos anos contribui para a formação de artistas, colecionadores e do público. É uma alegria poder fazer parte dessa história, ainda que por um momento.
Salvador sempre ocupou um lugar muito especial no meu imaginário. É uma cidade onde história, cultura e criação artística parecem fazer parte da vida cotidiana. A música, a literatura, as artes visuais, a arquitetura, a relação com o mar e a força das tradições convivem de uma maneira muito singular.
Talvez por isso faça tanto sentido que esta exposição aconteça ali. Estou curiosa para ver como o público baiano irá dialogar com a exposição e quais novas histórias esse encontro poderá trazer.