A série fotográfica Sirènes de Isidora Gajic focaliza relações arquetípicas da feminilidade. Após ser apresentada em exposições individuais no Rio de Janeiro (Brasil, 2024), Paris (França, 2023) e Colônia (Alemanha, 2022), e ser tema do livro de artista lançado em Arles (França, 2023), Sirènes ocupa a Galeria Paulo Darzé em Salvador.
Nascida em Belgrado, Servia, em 1988, Gajic vive no Brasil desde 2012. Como artista visual trabalha com fotografia, através de instalações e livros de artista, explorando a fotografia não documental e temas como memória, transformação, feminilidade, mitologia e a relação emocional entre o corpo e a natureza. A artista busca criar delicadas ambiências imersivas nas quais as imagens tornam-se objetos atmosféricos, utilizando fotografia analógica, digital e de grande formato, através de registros sobrepostos e experimentações com materiais, luz, movimento e transparência.
Nas séries anteriores de Gajic, Telas e Tramas (2016) e Flutuações (2020), aparecem incipientes alguns elementos da série Sirènes (2022). Impressas sobre seda e suspensas no espaço, as imagens perscrutam ideias de sensualidade e fluidez, metamorfose e desaparecimento. Como fruição imersiva, a instalação explora o extracampo fotográfico, tanto do âmbito invisível, além das bordas das capturas, quanto do espaço expositivo da galeria.
O título da série Sirènes funde dois termos e significados diferentes no português: sereia e sirene. A sereia é uma criatura lendária meta de mulher e metade peixe, enquanto o termo sirene comporta duas acepções: a sirene mitológica da mulher com corpo de pássaro e a sirene como dispositivo de alarme sonoro.
Desde o ponto de vista biológico, sirenes e sereias são seres híbridos, descendentes do cruzamento entre diferentes espécies ou gêneros. Em termos mitológicos, a fisionomia mais conhecida das sereias como mulher-peixe remonta à Mesopotâmia, cerca de 1.000 a.C., à deusa assíria Atargatis quem, ao se atirar às águas por causa de um acidente amoroso, emergiu com o tronco humano e a cauda de peixe. Entretanto, para os antigos gregos, as sirenes eram mulheres-pássaros, criaturas monstruosas com cabeça humana e corpo de ave.
Relatadas por Homero na Odisseia, as sirenes eram seres assustadores que, com seu canto hipnótico, atraíam marinheiros para a morte – possivelmente daí derive a acepção atual de sirene como sinal sonoro de emergência. Entretanto, na cultura ocidental, a fisionomia da sereia como ser aquático se registra a partir do século VIII, quando diversos relatos misturam o mito grego da sirene com lendas nórdicas e contos populares, transformando as mulheres-pássaro em donzelas com caudas de peixe.
Como todo ser híbrido, as propriedades das sirenes e das sereias resultam da combinação fenotípica e comportamental das espécies progenitoras, sejam mulheres-pássaros ou mulheres-peixe, dualidades ou forças da natureza que personificam tanto a inteligência, a sagacidade e a sensualidade quanto a ferocidade e a intempestividade. Na longa tradição da arte alegórica, enquanto seres híbridos, sirenas e sereias costumam representar a conexão entre o Cosmos e a Terra, entre a juventude e a fertilidade, e entre a transitoriedade e a morte. “Dualidades ou forças da natureza que personificam tanto a inteligência, a sagacidade e a sensualidade quanto a ferocidade e a intempestividade”.
A série fotográfica de Gajic é inspirada musicalmente por Sirènes, de Claude Debussy, terceiro e último movimento da sinfonia Nocturnes (1899), composição caracterizada por uma atmosfera impressionista, com texturas musicais fluidas, onde a música não tenta contar uma narrativa, mas sim pintar um quadro sonoro, que capta o mar e seus inúmeros ritmos. Diferente das tradicionais obras corais, nessa obra Debussy utiliza um coro de vozes femininas que canta apenas em vogais, onde a voz é tratada puramente como um instrumento orquestral, fundindo-se ao timbre da orquestra para criar um efeito que evoca o canto hipnótico e misterioso das míticas sereias sobre o ritmo ininterrupto do oceano.
Além das inspirações e referências simbólicas, a série Sirènes de Gajic resulta de um intrincado trabalho de edição fotográfica, de pesquisa de impressão e de intervenção técnica próximo da pintura. O processo criativo é atravessado por situações extremas de fugacidade e resistência da imagem, de sua transitoriedade e permanência no suporte, tensionando as possibilidades mecânicas e o fazer artesanal. “Gajic busca ir além da fotografia enquanto imagem fixa, […] desconstruindo a ideia de unicidade dos enquadramentos” As imagens de base são oriundas de inquietações que vão se articulando no processo criativo da artista, a maioria capturas noturnas realizadas em Portugal, motivadas pelo estudo da dramaticidade da luz, e na Bahia, observando a enchente da maré. Entretanto, Gajic busca ir além da fotografia enquanto imagem fixa. Primeiramente, a artista investiga a superposição de diversas capturas como impermanência da imagem, desconstruindo a ideia de unicidade dos enquadramentos. Depois, experimenta a emulsão sobre diferentes tipos de seda, buscando ir além do suporte, como um corpo respirando no espaço, explorando uma dimensão orgânica e flutuante dos tecidos suspensos. Todavia, metade das imagens processadas não suportam ou atendem às condições de impressão na seda. Assim, as imagens resultantes contêm uma ideia de resistência que oferece um contraponto interessante à delicadeza do resultado final.
Sejam benvindos à exposição e se deixem embalar pelo mistério das águas e da fauna das profundezas do mar ao ritmo da música silenciosa das Sirènes de Isidora Gajic.
Alejandra Muñoz Jul.2026
Sua obra abarca livros artesanais, colagens, e diálogos visuais diálogos visuais multimídia com fotografias. Você nasceu na Sérvia, cresceu na Hungria e na Suíça. Depois de terminar o ensino secundário frequentou a escola de fotografia em Amsterdã, onde realizou bacharelado em Belas Artes. Desde 2012 vive no Brasil, mora no Rio de Janeiro, em Araras. Críticos afirmam frequentemente que suas imagens são uma forma de poesia visual e que histórias pessoais fundamentam sua criação. Há nela este trânsito entre autobiografia e ficção?
Sim, existe um trânsito entre autobiografia e ficção. As fotografias quase sempre nascem de momentos da minha vida, de experiências e observações. Cresci entre diferentes países e idiomas e, talvez por isso, a fotografia tenha se tornado a forma que encontrei para pensar e compreender o mundo. Meu trabalho começa de maneira intuitiva. Primeiro eu fotografo. Só depois volto para as imagens e tento entender por que fiz aquelas fotografias. Aos poucos, elas me levam para novas leituras, lembranças, músicas ou mitos, e o trabalho ganha uma direção mais clara. A autobiografia está presente porque tudo parte da minha própria experiência. Mas não faço fotografias para contar a minha história. Muitas vezes são as próprias imagens que acabam me mostrando algo que eu ainda não tinha conseguido perceber.
Outra forma de dizer é que ela abarca a procura de transformar sentimentos e relações em fotografias. Utiliza das imagens para desenvolver uma forma de poesia visual que mistura ficção e documentário, explora temas como a energia feminina, o nascimento, os estados de espírito interiores, os contos de fadas e a passagem do tempo. Como sente esta leitura de seu trabalho, ou sente que há uma outra leitura ou outras?
Acho essa uma leitura muito bonita e me reconheço em desses temas. Ao mesmo tempo, acredito que existam muitas maneiras de ler uma obra. Gosto da distinção que Roland Barthes faz, em A Câmara Clara, entre o studium — ligado ao contexto, à cultura e ao que podemos compreender em uma imagem — e o punctum, aquilo que nos toca de maneira íntima e inesperada. Essa ideia sempre me acompanhou porque me lembra que uma fotografia nunca se esgota em uma única leitura
Seu trabalho, segundo a crítica, explora temas como memória, transformação, feminilidade, mitologia e a relação emocional entre o corpo e a natureza, combinando fotografia analógica, digital e de grande formato, imagens sobrepostas e experimentações com materiais e papéis, e com frequência cria instalações imersivas nas quais as imagens tornam-se objetos atmosféricos. Neste momento, a seda, a luz, o movimento e a transparência são os elementos recorrentes em sua prática? O que há nelas, suas fotos, de emoção, de memória, de vivência? Busca com elas modificar sentimentos e relatar a transformação de suas vivências?
A seda continua sendo um material muito importante para mim porque transforma a fotografia em algo mais próximo de um corpo. Ela reage à luz, ao ar e ao espaço. A imagem deixa de ser apenas uma superfície e passa a ter uma presença física.
Há uma opinião crítica de que através de imagens, “seja de neve, teias de aranha, tramas irregulares, águas em movimentos aleatórios, você retrata histórias pessoais que vem a despertar diversos sentimentos”. Mas numa entrevista li esta sua afirmação: “se tentarmos ver nas imagens aqui construídas em grupos, apenas documentos do que ocorreu, estaremos nos diminuindo, caindo no erro das multidões que nem sequer vivenciar o presente sabem mais, apenas o captam para congelado, servir de troféu”. É realmente pensada ou emocional a criação de uma obra ou você quer objetivamente confundir ficção e documentário?
Acho essa uma leitura possível. Muitas das fotografias realmente partem de experiências pessoais, mas não tenho a intenção de ilustrar ou narrar essas vivências. Não penso meu trabalho como uma tentativa de confundir documentário e ficção. A fotografia sempre parte de uma experiência real, mas, no momento em que ela é enquadrada, editada, colocada em relação com outras imagens ou apresentada no espaço, ela já deixa de ser apenas um documento.
A sua série fotográfica Sirènes focaliza relações arquetípicas da feminilidade? Após ser apresentada em exposições individuais no Rio de Janeiro (Brasil, 2024), Paris (França, 2023) e Colônia (Alemanha, 2022), e ser tema do livro de artista lançado em Arles (França, 2023), Sirènes ocupa agora a Paulo Darzé Galeria em Salvador. Nela você trabalha com fotografia, através de instalações e livros de artista, explorando a fotografia não documental. Como sente este trabalho? Como mostra e como um momento de sua trajetória artística?
Sim, Sirènes já foi apresentada em três exposições antes desta na Galeria Paulo Darzé. Mas a série nunca se repete da mesma maneira. Como reúne muitas imagens, cada exposição acaba sendo uma nova edição, construída a partir do espaço onde será apresentada. As relações entre as obras mudam, surgem novos diálogos e a exposição ganha uma identidade própria.
Vejo Sirènes como uma etapa muito importante da minha trajetória. Sempre entendi a fotografia como parte do campo das artes. Como falei antes, para mim ela nunca foi apenas um documento, mas uma linguagem artística. Ao longo desse trabalho, fui entendendo a delicadeza do processo de construção de uma obra. Entre fotografar, editar, imprimir, produzir um livro ou pensar uma instalação, cada etapa transforma a anterior. O trabalho vai sendo construído em camadas.
Para Alejandra Muñoz, que apresenta a exposição na Paulo Darzé Galeria, você “busca ir além da fotografia enquanto imagem fixa. Primeiramente, investiga a superposição de diversas capturas como impermanência da imagem, desconstruindo a ideia de unicidade dos enquadramentos. Depois, experimenta a emulsão sobre diferentes tipos de seda, buscando ir além do suporte, como um corpo respirando no espaço, explorando uma dimensão orgânica e flutuante dos tecidos suspensos. Todavia, metade das imagens processadas não suportam ou atendem às condições de impressão na seda. Assim, as imagens resultantes contêm uma ideia de resistência que oferece um contraponto interessante à delicadeza do resultado final”. Este é um relato bem preciso de sua obra atual?
Sim. Acho que a Alejandra conseguiu perceber algo que faz parte do meu processo. A seda nunca foi apenas um suporte para mim. Ela também participa da construção da obra. As imagens que estão na mostra encontram na seda o lugar onde funcionam melhor.
A impressão sobre seda é o mais recente material que você vem experimentando? Nas séries anteriores, Telas e Tramas (2016) e Flutuações (2020), aparecem incipientes alguns elementos da série Sirènes (2022). Impressões sobre seda suspensas no espaço, as imagens através ideias de sensualidade e fluidez, metamorfose e desaparecimento. A instalação explora o extracampo fotográfico, e faz a série Sirènes resultar de um intrincado trabalho de edição fotográfica, de pesquisa de impressão e de intervenção técnica próximo da pintura. Este seu processo atual como processo criativo atravessa situações de fugacidade e de resistência da imagem, de sua transitoriedade e permanência no suporte, tensionando as possibilidades mecânicas e o fazer artesanal?
A impressão sobre seda foi resultado de um longo processo de experimentação. Durante a pandemia, passei muito tempo na fábrica acompanhando os testes de impressão e experimentando diferentes tipos de seda. Trabalhamos com uma técnica de impressão de origem litográfica japonesa.
A artista nesta mostra, diz ainda Alejandra, “busca criar delicadas ambiências imersivas nas quais as imagens tornam-se objetos atmosféricos, utilizando fotografia analógica, digital e de grande formato, através de registros sobrepostos e experimentações com materiais, luz, movimento e transparências. Suas imagens perscrutam ideias de sensualidade e fluidez, metamorfose e desaparecimento. Como fruição imersiva, a instalação explora o extracampo fotográfico, tanto do âmbito invisível”. Nesta sua série, em exposição na Paulo Darzé Galeria, com o título Sirenes, temos fotografias impressas sobre seda e suspensas no espaço, inspiradas pela composição Sirènes, de Claude Debussy, e por figuras femininas arquetípicas da mitologia. As obras investigam fluidez, sensualidade, desaparecimento e metamorfose, criando ambientes nos quais a fotografia interage com a arquitetura, o ar e o movimento do espectador. Quantas fotografias estão na mostra? Quantas impressas sobre seda?
A exposição reúne nove obras, além do livro de artista, que é um objeto criativo importante desse projeto. Sempre procuro desenvolver livros porque vejo neles uma linguagem própria da fotografia, que trabalha a edição e a imaginação. Foi durante a primeira maquete do livro que comecei a construir a narrativa mitológica de Sirènes. A partir dela, comecei também a pensar nas impressões sobre seda. O livro foi publicado em Paris por Frédérique Destribats, impresso na Bélgica com uma técnica litográfica tradicional e encadernado à mão por Laurel Parker, em Paris.
De acordo com Paulo Sérgio Duarte, – em seu texto crítico sobre a série – “As Sereias de Gajic escapam de qualquer mitologia; seja a grega, as mulheres voadoras cujo canto enlouqueciam os marinheiros; seja a nórdica, lindas mulheres metade peixe, narcisistas – adoravam um espelho. Essas fotos são partituras diferentes, elas se opõem sem brigar. São musicais, sem dúvida alguma. Contrastam e nas imagens díspares evocam diferentes momentos da modernidade. Mas têm uma particularidade que as fazem únicas: engana-se quem estiver observando fotos sobre seda. A seda não é um suporte, é protagonista tão importante quanto as imagens emulsionadas. E isso tudo transforma. Emancipada, a seda vem com sua longa história, lá do extremo oriente, nos fazer ver o que nunca tínhamos visto. Com sua leveza e textura únicas, as imagens literalmente flutuam diante de nossos olhos”. Considera a série Sirènes ser a seda como protagonista para suas imagens?
Gosto muito do texto do Paulo Sérgio Duarte. A seda mudou a minha relação com a fotografia. Os livros de artista também. Eles abriram outras possibilidades para pensar e construir uma obra fotográfica.
Creio ser esta a sua primeira exposição na Bahia? Qual a expectativa sua quanto ao público baiano?
Sim, é minha primeira exposição na Bahia. No ano passado, Thaís Darzé visitou meu ateliê e foi nesse encontro que começamos a conversar sobre a possibilidade de fazer uma exposição juntas. Tenho grande admiração pelo olhar da Thaís, pela programação da galeria e por sua extraordinária coleção de arte. Fico muito feliz em apresentar Sirènes nesse contexto. Também tenho muita curiosidade em conhecer o público baiano. Sempre vi a Bahia como um dos lugares mais fortes da cultura brasileira e, curiosamente, uma das obras da série, Moon Bath (2016–2022), foi fotografada na Bahia, durante a maré cheia sob a luz da lua.
Entrevista concedida a Claudius Portugal